Natal renal

Em março desse ano, numa dessas viradas que a vida dá, descobrimos que a Ana Paula tinha tido falência dos dois rins. Numa dessas sortes que se dá na vida, apesar dos dois não terem mais jeito, pegamos (por pouco) antes que algo grave e permanente acontecesse.

Eu não estava por perto pra acompanhar tudo o que aconteceu; por conta disso, quando cheguei, tive que me acostumar emocionalmente à nova rotina em casa. Minha irmãzinha tinha um catéter na barriga para fazer-se diálise, um procedimento que compensava a falta de rins enquanto se resolvia o que fazer. Vê-la pela primeira vez, deitada na cama jogando gameboy como se nada demais estivesse acontecendo enquanto Mãinha se ocupava do procedimento foi tão chocante pra mim que não pude fazer nada além de fingir que nada demais estava acontecendo. O bom humor de Aninha, que continuava engraçada e espirituosa, continuou estudando (e passou bem de ano) e que não ficou se lamuriando por aí por conta dos ocorridos só me faziam pensar, envergonhado, em como eu estaria ranzinza se isso tudo fosse comigo.

Pois eis que o Natal vem chegando. Dia 22, pensando como eu ainda tinha que ir pra rodoviária comprar passagem pra viajar pra Araraquara no dia seguinte, eu acordo e vou tomar café da manhã. Encontro meu celular na cozinha, com 8 chamadas não atendidas, de mãe, pai e Cynthia. Ligo de volta, e pergunto que pasa?

"Oi, fi, estamos em São Paulo", diz Mãinha. "Surgiu um doador pra sua irmã, a operação vai ser hoje mesmo".

Eu não sabia se ria, se chorava, se pulava, se corria. Na indecisão de que atitude tomar, acabei indo trabalhar mesmo. Cheguei na Recesso contentão, espalhando pra quem quisesse (ou não) ouvir que minha maninha tinha conseguido um rim novo.

Liguei várias vezes durante a tarde pra saber a quantas andava o procedimento. Pai e Mãinha me mantiveram a par dos ocorridos, que correram muito bem. No fim da tarde, ao falar com Cynthia, chegamos os dois à conclusão de que não agüentávamos mais ficar no suspense e que tínhamos que ir pro hospital já. Fugimos dos empregos, nos encontramos no metrô uma hora depois, e rumamos para o Hospital do Rim, na Santa Cruz. No caminho compramos uma vaca engraçada que mugia e mexia o pescoço pra tentar alegrar Ana Paula.

A gente não tem uma noção do baque que uma operação dessa dá numa pessoa até que vê alguém que acabou de sair de uma. Consegui fazer uma visitinha na UTI naquela noite, e ela estava lá, deitadinha, cheia de tubos que entravam e saíam dos mais diferentes lugares, saindo da anestesia. Sabia que a gente tava lá, mas prestar atenção requeria esforço; um tubo na boca não a deixava falar. No meu turno com ela na UTI, fiquei lá bolando perguntas de sim e não pra ela poder responder com a cabeça, me sentindo meio incapaz de fazer muita coisa que ajudasse, mas querendo estar lá pra dar uma forcinha moral que fosse.

E assim continuei visitando todas as noites. Véspera de Natal ela estava ainda na UTI; Danilo estava de plantão, Anselmo foi para Araraquara representar a família no Natal da Vó, e, às oito e meia da noite, eu fui pro hospital pra tentar ficar o máximo de tempo que permitissem com Ana Paula. Mãinha estava lá direto desde a operação; Pai me levou e ficou lá com a gente também.

Quando cheguei, pensei em cantar nosso hit familiar natalino, "Então é Natal", mas fiquei com medo de que, quando chegasse no verso "E o que você fez?", todos da UTI respondessem em coro: "TRANSPLANTE!". Ficamos os três espremidos na poltrona ao lado da cama da Ana Paula, levemente clandestinos, conversando baixinho e tentando dar um pique natalino para Aninha. Ela ainda estava molinha e cansada, mas já tinha menos tubos e podia falar um pouquinho quando queria.

No dia seguinte liberaram ela para ir para o quarto, e assim a gente pode fazer uma entrega de Papai Noel no dia de Natal mesmo. Anselmo chegou à tarde com Natashy e Vô Anselmo, com os presentes de amigo secreto, vídeos da família desejando melhoras para maninha e os presentes de Natal todos. Ana Paula animou um tanto, precisou um pouco de ajuda pra abrir os embrulhos, mas adorou seus presentes.

Mas, para todos nós, o maior presente de Natal para a família toda já tinha chegado a alguns dias.