Homeward bound

Ainda me parece um prodígio absurdo que um avião cheio de gente saia voando mundo afora e cruze um oceano a 700 km por hora.

Estou eu aqui na classe econômica, nas intermináveis duas horas antes do vôo terminar, retornando para a pátria amada idolatrada salve salve (por só um mês, mas, enfim). No que se refere a vôos, esse nem que foi tão ruim. O lugar ao lado do meu está vago, o que significa que eu tenho um pouco mais de espaço que a maioria das pessoas – mas ainda morro de inveja do povo que vai estirado na primeira classe. Antes do avião zarpar, um cara veio me pedir pra trocar de lugar com ele, porque ele estava separado do amigo dele e eles queriam sentar juntos, e assim eles poderiam ocupar o meu lugar e o lugar ao lado. Eu tive que dizer um não bem nãozado. Me desculpe, mas filantropia tem limite.

O livro que eu trouxe pra ler não durou mais que a espera da conexão entre Londres e Madri, quando peguei esse vôo de Madri pra Sampa as livrarias estavam todas fechadas, e agora eu estou entrando em parafuso, já que não consigo dormir, não tem o que ler e o tempo não passa. A bateria do laptop dura só mais meia hora. Talvez um crime aconteça antes de pousarmos.

Tem uma senhora uma fileira atrás que ocupa todo o espaço social do avião. Antes dele partir (com um atraso de duas horas, devido a congestionamento aéreo) ela ficava reclamando com a outra comadre dela ao lado que isso era um absurdo, o que estava acontecendo, por que que não davam sequer uma satisfação, bla bla bla bla. Depois de meia hora dessa ladainha, sem partirmos, e ela ameaçando ir na cabine do piloto, eu estava prestes a dar um soco na cara dela e enfiar essa mala no compartimento de bagagem, mas fiquei com medo de atrasar mais ainda o vôo. Em certo momento ela chegou a levantar, e voltou cinco minutos depois, se achando o máximo, dizendo revoltada que os aeromoços estavam jantando e que por isso que estava atrasado e assim que eles terminassem de encher a pança iam se preocupar com o resto do avião. Comissário de bordo tem que ter paciência, mesmo.

Já fazem 20 horas que eu estou viajando. Peguei um táxi da Jungle ontem para a estação de Paddington, onde tem um trem expresso que leva para o aeroporto de Heathrow em quinze minutos (quando se compara às duas horas de metrô entre Heathrow e o albergue que eu peguei quando cheguei… nada como não ter mais dinheiro contado). O motorista do táxi, um turco, tentou me convencer a deixá-lo me levar para o aeroporto ao invés de apenas até a estação de trem – no fim das contas, o preço total que ele ia cobrar sairia apenas quatro libras a mais que o preço do táxi mais a passagem de trem. Eu quase cedi, mas daí pensei em como eu ia ficar ansioso se a gente pegasse congestionamento, se ele começasse a andar em zigue-zague pra escapar do trânsito, etc. e tal, então achei melhor pegar o trem mesmo que com certeza chega na hora. O tio ficou muito ofendido, e nem eu deixar três libras de gorjeta pra ele fez ele parar de resmungar.

Na hora do check-in, minha mala estava 6 quilos mais pesada que o permitido. Tive que ir pruma loja do aeroporto, encontrar uma bolsa que tivesse a melhor relação tamanho-peso, e repartir a bagagem entre as duas, pra não ficar preso na ilha por excesso de bagagem. Mas, tirando isso, tudo deu tão certo que até me espanta – pensar que eu comprei essa passagem de volta há quase um ano, e ela realmente estava lá me esperando. É espantoso. Assim como um avião levantar vôo. E a bateria do laptop ter durado tanto. Mas agora já vai desligar.