Chegar chegando

O momento de passar na alfândega é, na minha opinião, o mais próximo de um filme de suspense que a vida real pode chegar. Você sabe que está cheio de coisas que deveria declarar se fosse estupidamente honesto, mas tenta calçar a sua cara de pobretão sem eletrônicos e empurra seu carrinho o mais confiante possível. Entra na fila do nada a declarar com a maior cara lavada; o tio da alfândega te olha. Suspense. Tcham!! Será que vai colar? Será? Será?

Não colou. O guarda pediu pra eu passar minhas malas no raio-x. Lá vou eu, tentando manter a cara inocente, enfiar a bagagem na máquina.

"Você tem dois laptops?", pergunta o tiozinho no. 2.

"Tenho sim".

"O senhor aguarde lá no canto, por favor".

Espera um pouco, vem tiozinho no. 3, que me pede para abrir as malas. Lá vou eu tentando fazer uma leve cara de impaciência, como quem diz "que absurdo, alguém inocente como eu, parado na alfândega…". Não cola muito, já que não consigo conter os gaguejos. O tio olha um laptop, depois o outro, os dois abertos e em maletas.

"Sua profissão?", diz ele.

"Designer gráfico".

"Onde mora?", ele continua, fazendo cara de mau.

"Agora, Londres", respondo, tentando parecer cool.

"Quero ver um comprovante de endereço", diz ele, mais mau ainda.

"Claro", falo, tentando lembrar em que mala que eu enfiei o registro da polícia de Londres.

"O senhor usa esses dois laptops profissionalmente?", diz seu guarda.

"Uso sim", minto eu.

"Pode passar. Não precisa mostrar o comprovante de endereço", diz ele, se fazendo de crédulo.

Eu volto a empilhar as malas no carrinho, dando graças a deus que comprei o laptop do pai usado, e vou de encontro com a familia, que, sabia, estava me esperando do outro lado do portão de desembarque.

.o0o.

Para quem já viajou 20 horas, nada melhor do que… continuar viajando. Pai, Mãinha, Anselmo e Ana Paula vieram me pegar no aeroporto – faltaram Danilo e Ana Paula. Fotos, lágrimas, saudades mortas espalhadas pelo chão, malas empilhadas no porta-malas, nós todos acomodados no carro, e eu tentando me acostumar com isso de um dia estar num país e no seguinte estar no outro, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

Mais duas horas do aeroporto até Campinas, onde eu faço a distribuição de presentes para todos. Anselmo, que ganhou jogo de computador e três camisas de futebol britânico oficiais, quase morre de emoção. Os presentes, em geral, agradam, acho eu. Como estou bonzinho, deixo Anselmo instalar seu jogo novo no Macedo Afonso, pra ele poder ir jogando na viagem.

Sim, porque, como se não tivesse viajado o suficiente, estávamos agora indo para Araraquara, por uma boa causa: o aniversário da Vó Maria, no qual eu chegaria de surpresa.

As paisagens da estrada continuam as mesmas, mas é tão bom estar em solo nacional de novo.

Vó Maria quase teve um ataque do coração quando me viu, de tão contente. Tios e tias de monte para cumprimentar e abraçar. A primaiada toda cresceu. A comida é ótima, aleluia salve salve. Mais um pouco, e estamos jogando baralho. Chegar foi tão fácil, nem parecia que eu tinha ido.