Nem era pra ser uma edição particularmente difícil. A capa ia ser sobre funk carioca; tínhamos comprado uma matéria bacana sobre o assunto, tínhamos descobrido um fotógrafo que tinha fotos legais dos bondes, das popozudas e afins, estava tudo nos esquemas. Quando chegou a notícia de que tinham atirado num carinha no metrô, a gente achou tudo muito triste e lamentável, mas continuamos como se nada tivesse acontecido. Até que, na noite de sábado, as redes de amigos de amigos começaram a vazar informação: o morto era brasileiro.
A primeira coisa para que a gente se mobilizou foi tentar cavar essa história e vender o relato exclusivo pra algum jornal no Brasil. Descobrimos quem conhecia a família, e de repente a Gianna estava na casa dos parentes enquanto na redação a gente ligava pros jornais e tentava descobrir com quem falar nos órgãos responsáveis pra conseguir mais informações. Tivemos nossas poucas horas de Veja com um furo nas mãos.
Nos dias seguintes, no entanto, começou a parte mundo real e cruel. Nós, revista para brasileiros em Londres, não tínhamos mais como dar a nossa capa funkeira com o brasileiro morto por engano. Metade do trabalho do mês foi por água abaixo: agora era correr atrás de fotos dos atentados, da vítima, das autoridades e tudo mais que pudesse ilustrar a matéria. Mobilizamos todos os nossos colaboradores de super boa vontade, pra que um fosse cobrir um protesto no metrô enquanto outro ia cobrir um ato no parlamento. Acabamos eu e Tutu indo no ministério das relações exteriores, acompanhar o pronunciamento do ministro inglês e do nosso ministro brasileiro, que tinham acabado de ter um bate-papo sobre o pepino que tinham em mãos.
O pior é você ir acompanhando os eventos todos e sacar os bastidores: o ministro que afirmou categoricamente que o defunto estava legal aqui no Reino Unido, quando a gente sabe que é quase impossível alguém estar na ilha a cinco anos regularmente sem uma cidadania ou algo que o valha; as primas do coitado, que acabaram se dando bem com a desgraça toda e estavam dispostas a sugar da rainha tudo o que podiam; o The Sun, que, no dia que mataram o pobre, tinha dado uma manchete "One down, three to go", mas que, depois, quando descobriram a cagada, não abriu o bico.
E, enquanto isso, a gente se esfalfando noite adentro pra tentar fazer uma matéria decente, que não fosse tendenciosa, com o máximo de informações acuradas, com os nossos parcos recursos. As quatro capas que eu tinha feito sobre o funk foram para o lixo e tive que sambar para chegar na capa que usamos. Xingamos o céu e o universo, já que isso podia pelo menos acontecer uma semana depois, quando a revista já tinha ido pra gráfica e não dava pra fazer mais nada. Soraia resumiu bem o sentimento nosso: "A gente sofreu tanto pra parir essa edição que eu não vou conseguir olhar pra essa revista quando ela chegar da gráfica".
E não conseguimos mesmo.