Vamos lá, agora todo mundo comigo, imaginando os microfones voadores da Globo passando pela telinha enquanto eles tocam "tchan tchan-tchan tchan-tchan tchan-tchan-tchan-tchaaan… tchan tchan-tchan tchan-tchan tchan-ran-tchan-tchan tchan-raaaan… tchan-tchan-tchan-tchan! Dum dum dum dum dum dum dum dum dum…"
Pois é, e eu que achava que nada bateria o casamento do príncipe Charles na minha coleção de manchetes britânicas…
Vários de vocês já receberam e-mails meus dizendo que está tudo bem. Pode até ser monótono, mas hoje eu não cheguei nem perto das áreas explodidas. Não vou ter uma história heróica de combate ao terrorismo pra contar. O que, se pensando bem, nem é tão ruim assim.
Eu tinha acabado de acordar quando fiquei sabendo. Levantei, tomei banho, estava já saindo de casa quando a voz dos meus housemates quase me matou do coração, porque a gente nunca se vê de manhã. A Sanni e o Jamie estavam no quarto dele, vendo o plantão da BBC, que dizia que tinham explodido vários lugares em Londres. Eu assisti um pouco, mas não estavam num estágio informativo ainda, um monte de repórteres apenas perguntando pros coitados que tinham passado pela situação como eles estavam se sentindo. Peguei a bike e fui pra faculdade, que eu tinha a apresentação da minha proposta de projeto final pra fazer.
Nos meus cinco minutos de pedalada, foi super-estranho, porque tava todo mundo com uma cara de quem não sabe pra onde ia. Os ônibus tinham todos parado onde estavam assim que as explosões aconteceram, provavelmente por medo de que algum outro explodisse. O metrô estava fechado, e as pessoas todas ficavam na rua sem rumo, pensando o que iam fazer da vida.
Bem, claro, cheguei na facul e só tinha eu e mais três gatos pingados, que vivem na moradia da faculdade e portanto têm que andar três quarteirões inteiros pra chegar na facul, mais duas meninas que tinham chegado na escola muito cedo pra terminar a apresentação que fariam naquela tarde. O resto das pessoas não tinham como chegar porque não tinham transporte. Nem os professores, que também vêm de trem e etecéteras, conseguiam chegar. Depois de uma hora de espera, o único professor presente resolveu que era melhor deixar a apresentação pra terça-feira, quando todo mundo estaria lá. E eu que tinha ficado até tarde da noite fazendo a apresentação…
Enrolei um pouco com meus colegas de classe, e daí liguei pro meu chefe do Guardian, que me pediu pra ir pra lá o quanto antes. Subi na Angelina Norma e, levemente temeroso, fui pro centro de Londres. A cada cinco minutos uma ambulância passava por mim indo pra algum lugar; no meu caminho pro Guardian, não tinha nenhum dos lugares explodidos, mas era bem caótico mesmo assim. Só a fila de ônibus encostados nas ruas era impressionante. Enfim.
Cheguei no jornal sem maiores incidentes. Depois do dia do casamento do príncipe Charles, eu já devia estar acostumado. Mas sempre me surpreende a aparente calma de todo mundo da redação, quando eu esperaria que estivessem todos arrancando os cabelos e gritando de um lado pro outro. Apenas duas coisas diziam que havia algo diferente acontecendo: primeiro, que, por causa dos problemas de transporte e etc., eles não sabiam se iam conseguir usar a gráfica principal, e, caso não conseguissem as seções tablóide do Guardian não iam sair, porque a gráfica estepe não ia ter capacidade de imprimir tudo. Segundo, que, como tinham que imprimir 500 mil cópias pro dia seguinte, já que obviamente todo mundo ia querer ler a respeito, precisavam fechar a primeira edição às seis da tarde, pra dar tempo de rodar tudo.
Eu brinquei um pouquinho que os responsáveis eram os franceses, rancorosos por terem perdido as olimpíadas, mas não insisti muito na piada pra não criar desconforto. O pessoal estava meio abalado.
A UOL não tinha noticiado nada a respeito daqui ainda, mas quinze minutos depois que eu cheguei começou a dar as manchetes, e daí eu me dei conta de que precisava ligar pras pessoas do Brasil. Fui conferir meu e-mail pelo webmail, e tinha várias mensagens das pessoas preocupadas comigo, o que foi meio tocante. Respondi o mais rápido que podia, porque não podia perder muito tempo com a hora da gráfica sendo assim tão apertada. Liguei pra casa, pra vó e fiz todo mundo saber que estava inteirinho da silva.
E assim, calmamente, meus colegas de Guardian prepararam a edição especial, mais um plano B pra colocar no G2 (uma matéria tonta sobre a rede de sanduíches Subway, ironicamente) caso os textos que eles estavam planejando a respeito dos atentados não saíssem antes da seis da tarde, ou saíssem ruins. O que felizmente não aconteceu. O pessoal do departamento de gráficos estava a todo vapor fazendo infográficos explicando os onde e quando e quantos do atentado, as fotos dos lugares começaram a chegar, começaram a mostrar na TV os estropiados… o clima estava pesado.
Conseguimos fechar tudo antes das seis, incluindo a seção de turismo (que eu tomei conta) e a de literatura. Quando saí, tudo já estava quase normal, mas as pessoas ainda tinham esse ar meio perdido.
Depois, no dia seguinte, eu fui assistir ao Jornal Nacional. E fiquei impressionado com o tom apocalíptico das notícias. Parecia que a cidade estava sitiada, com pessoas arrancando os cabelos pelas esquinas. Quando, na verdade, era bem o contrário. Todo ficou sob controle o tempo todo. Mas, como já disse Cynthia, "If it bleeds, it leads".