Uma das melhores amigas da Cynthia, a Tiana, é uma das maiores fãs da Zélia Duncan. Quando ela se apresenta em Sampa, Tiana compra ingressos para todos os shows. Sabe o humor da ídala só do jeito dela entrar no palco. Zélia a conhece pelo nome, pergunta por que ela não apareceu em tal show, é genial ver. Você pode até achar exagerado. Mas Tiana não.
Essa semana, eu entendi a Tiana.
Eu conheci a Tori Amos quando estava fazendo intercâmbio nos Estados Unidos, em 1995. O Jesse, meu host brother, com quem eu dividia o quarto, tinha o segundo álbum dela, o Under The Pink, e ouvia-o bastante. Colocava "The Waitress" pra tocar quando estava revoltado com o mundo, e eu fui prestando atenção no disco, e pegando gosto por ele aos poucos. Daí ela lançou o terceiro, Boys for Pele, ele comprou, e, pouco tempo depois, eu comprei também. Antes de ir embora, eu comprei o que ele tinha e o primeiro, Little Earthquakes. Cheguei no Brasil com Tori Amos e Alanis Morissette na bagagem, as duas totalmente desconhecidas em terras tupiniquins.
Desde então, eu tenho acompanhado a carreira da Tori, e ficado cada vez mais satisfeito com ela. Ela já está em seu oitavo disco; eu tenho todos. Até a uns três anos atrás, os discos dela não eram vendidos no Brasil, e eu tinha que mandar importar. Mas sempre valeu o investimento. Nesses dez anos, a Tori nunca deixou de criar coisas novas e diferentes, sempre surpreendendo seus fãs com sons e abordagens novas.
Uma das minhas frustrações, no entanto, foi que eu nunca ia conseguir assistir a um show ao vivo dela. Os milhares de sites de fãs, MP3 piratas e etc. sempre atestaram que ela era um espetáculo no palco, só com seu piano ou com banda. Mas ninguém jamais traria ela pro Brasil. A Alanis ficou pop e famosa, tinha quem bancasse algumas aparições abaixo do Equador; apesar de já não ser mais tão cult quanto já foi, a Tori nunca ganhou o impulso comercial que fizesse ser lucrativo trazê-la pra terra brasilis.
Pois então qual não foi minha alegria, aqui, perdido na ilha, ao saber que ela estaria fazendo dois shows em Londres pra promover seu novo disco, The Beekeper. Achei o preço meio salgadinho, mesmo para os lugares pobres, mas achei que valia o investimento, e comprei o ingresso pro show de sexta (haveria outro no sábado). Aqui tem que se comprar o ingresso assim que avisam que o show vai acontecer, dois meses antes do próprio, porque senão os ingressos acabam e você acaba ficando na mão (de cambistas). Comprei meu ingresso, que foi entregue em casa, e fiquei esperando o grande dia.
O espetáculo foi no teatro Apollo em Hammersmith, que fica no leste de Londres. É meio velhinho, mas bem grande – da época que qualquer casa de shows que se desse ao respeito tinha que ser impressionante e majestosa. Meu lugar ficava no segundo andar de assentos, láááá atrás, quase no fim, na fila T. Apesar do artista ficar meio minúsculo, a visão era boa, e, vi depois, o som é excelente.
Antes da Tori tocou Tom McRea, que é bem legal. Quando ela chegou, a platéia ficou em polvorosa. É sabido que os fãs da Tori Amos estão entre os mais histéricos do mundo da música – se ela arrotar no microfone, todo mundo vai achar lindo e aplaudir. O que pude conferir, no entanto, é que isso é em parte justificado. Ela tem uma presença de palco incrível; mesmo à distância astronômica que eu estava, dava pra sentir o controle que ela tinha sobre a platéia. Entre músicas do disco novo, músicas antigas e covers, ela fez um show fenomenal, com seu piano e três órgãos (e, várias vezes, tocando piano e órgão ao mesmo tempo). E, pra me deixar feliz, cantou "Marianne", que é uma das minhas músicas mais favoritas de todas.
O problema foi que, para meu horror, essa foi uma das platéias mais sem-educação que eu já vi na minha vida. Entre uma música e outra, NO SHOW INTEIRO, vinte ou trinta pessoas levantavam, iam fazer algo, e voltavam. Eu pensei que era só no começo, com aqueles que tinham chegado atrasados, mas o movimento continuou nonstop até o fim – algo que me irritou muito. Por eu estar lá atrás, eu via o movimento da platéia inteira. No bis, quando eu percebi que as pessoas lá no andar debaixo tinham se levantado pra encostar no palco, corri e fui pra lá também – e consegui ver a Tori mais de pertinho, confirmar que a figura de palco dela impressiona ainda mais quando você consegue ver a expressão facial dela, e jurei que no futuro eu gastaria mais para ter um lugar decente em que os malditos ingleses sedentos por cerveja não me atrapalhassem o show.
Pois então qual não foi minha alegria ao saber que meu chefinho Juliano tinha conseguido de graça um par de ingressos para o show dela no dia seguinte, e não poderia ir? Não tive dúvida, fiz ele entender que se era pra alguém usar esse ingresso esse alguém era eu, que eu buscava-o aonde fosse. E fui. O plano era vender o outro que ele não ia usar, mas não dava pra eu concorrer com os cambistas, então chamei a Marina, que estuda comigo, pra usar o outro ingresso.
E só posso dizer que serei eternamente grato ao Juliano por ter me dado esse presente. Porque o primeiro show já tinha me deixado impressionado, mas essa segunda apresentação foi dez vezes melhor que o dia anterior. Aparentemente, pelo que ela comentou por alto durante a apresentação, no dia anterior o teatro estava com sérios problemas por causa da chuva – esse tipo de coisa que a platéia nunca fica sabendo. Agora ela estava mais descontraída e mais concentrada na performance. E, melhor ainda, trouxe para cantarem com ela o grupo gospel que tinha participado da gravação do disco – aparentemente eles deveriam ter ido lá no dia anterior, mas não conseguiram chegar por conta da chuva.
Além disso, dessa vez eu estava preparado, e fui anotando as músicas que ela cantava pra guardar de lembrança. No meio da segunda música, me deu um estalo, formatei meu MP3 player, e resolvi testar o microfoninho dele. Pra deixar a noite mais perfeita ainda, o lugar do ingresso do Juliano era ótimo – ainda no segundo andar, mas na segunda fileira, ou seja, muito mais perto, e com uma visão panorâmica.
Tori tocou todas as músicas mais bacanas do disco novo, e inúmeros clássicos dos antigos. Na parte de covers que ela estabeleceu pra essa turnê, em vez de tocar as desconhecidas que tinha tocado no dia anterior, tocou "Father Figure", do George Michael, e – quase tive um treco – "Like a Prayer", da Madonna. Ela estava com a corda toda, e, para minha alegria, eu estava numa posição estratégica em que, se a inglesada levantava ou não, eu não via – apesar que teve um cara na fileira da frente à minha que, ao terminar seu baldezinho de cerveja, achando complicado passar pelas pessoas a seu lado, achou mais simples pular pra fileira de trás e sair do meu lado. Selvagens.
É uma pena que aqui, no entanto, não tem aquela cultura que tem nos shows brasileiros, de recompensar os persistentes com visitinhas ao camarim pra dar uns autógrafos. Seria a cereja do bolo – mas os seguranças olham feio se você pergunta se tem coomo encontrar o artista depois do show. Vissiscitudes culturais.
Enfim, quase chego a agradecer (mas not really) que a Tori não fica no Brasil o tempo todo, porque, depois desse show, me sinto obrigado a ir a todos os shows dela que eu puder – e em bons lugares. Vale o investimento.
Para concluir, aqui vai o setlist do show de sábado, que eu consegui anotar:
– “Original Sinsuality”
– “Father Lucifer”
– “Icicle”
– “Mother Revolution”
– “Take Me To The Sky”
– “Yes, Anastasia”
– “Bells For Her”
– “Father Figure”
– “Like A Prayer”
– “Winter”
– “Cooling”
– “Jamaica Inn”
– “Witness”
– “The Beekeeper”
– “Sweet The Sting”
– “Rattlesknakes”
– “Hoochie Woman”
– “Hey Jupiter”