Uma nova fase da minha vida aqui na ilha começou com a chegada de um cara branco, pequeno e quadrado. Ele chegou faz pouco tempo, mas nós logo nos tornamos inseparáveis. Apesar de sua juventude, ele sabe quase todos os detalhes da minha vida, e já toma conta desse site, dos meus trabalhos da faculdade e da minha comunicação com os amigos.
Falo, é claro, de Macedo Afonso, meu lindo laptop.
Uma das minhas maiores dificuldades da minha vida londrina era a falta de um computador. Hoje em dia já não se faz mais nada sem um; um mestrado em design gráfico, então, é totalmente inconcebível sem um computador disponível para que você possa sentar por horas e fazer seus trabalhos. Eu, como pobre imigrante que chegou aqui praticamente com uma mão na frente e outra atrás, já tinha sorte de ter um lugar decente pra morar; computador ficava no plano das idéias até segunda ordem.
Entre os alunos da minha classe, por conta dessa minha necessidade de trabalhar e da falta de um computador, eu estava no rol dos mais coitados. Quase todos os meus colegas de classe, principalmente os europeus, têm seu laptop. Na hora de discutir os projetos com os orientadores, nada dessa pobreza tupiniquim. Iam pra sala do dito e abriam sensualmente seus laptops na frente do orientador, enquanto eu tinha que mostrar meus projetos assim, no meio da sala, na frente de todo mundo, num computador da escola.
É claro que tenho que me considerar um sortudo por poder ter usado o computador da KE esse tempo todo pra fazer meus projetos e etc. Sem os PCzões da JD, eu não sei o que seria de mim. Mas, mesmo assim, é um trampo, cada vez que você quer fazer algo da facul, ter que pegar a bicicleta, andar dez quilômetros, prender a bike, abrir a KE, e usar o computador. Se tiver sorte, você está sozinho e ninguém te interrompe; na maioria das vezes, porém, o telefone toca, alguém te pede um favor, surge uma urgência, ou alguém começa um papo mesmo, e lá se vai seu foco. Essa acabava sendo uma das razões pelas quais eu acabava trabalhando sempre até tão tarde; na calada da noite, todos estão dormindo – menos eu.
Com o dinheiro do Jornal, no entanto, a possibilidade de comprar um computador que me facilitasse a vida começou a se tornar mais real. Comecei a juntar dinheiro, lentamente. Meu plano inicial era comprar no cartão de crédito e pagar em duas vezes no cartão. Mas infelizmente (ou não), meu limite no cartão de crédito não era o suficiente pra comprar o laptop. Então esperei e me virei por mais um mês, juntei o dinheiro que faltava, e, assim que recebi do jornal, fui correndo fazer a compra antes que gastasse o dinheiro em besteira.
Fui na faculdade pra comprar pela rede deles e, assim, ganhar 10% de desconto. O que compraria, já estava decidido faz tempo: um iBook G4, com gravador de CD e DVD, 728 megas de RAM, 60 gigas de disco, mais uma câmera digital e uma mesinha digitalizadora. Esses dois, reconheço, são frescurites, mas seus preços, comparados com o do laptop, ficavam pequenos, e, então, que pelo menos eu fizesse o investimento todo de uma vez e ficasse feliz.
Demorou três dias para eles processarem meu pedido, mais uma semana e meia para entregarem. A espera quase me deixou doido, mas, no fim, já estava zen, me conformando em praticar a virtude da paciência e aguardando-o apenas para a outra semana. Entregaram na KE, como pedi, numa sexta de manhã (mesmo dia do show da Tori) e Renata me ligou avisando que tinha chegado.
A emoção de abrir as caixas era tanta que eu nem sabia o que fazer.
Depois de conferir que tudo funciona, começou a segunda fase, que é procurar todos os programas necessários para o laptop realmente se torne algo útil, não apenas um tocador de CD e leitor de e-mail. O que se resolveu bem rápido; graças ao auxílio de Léo Favre, Marina e do chefinho Roger, em dois dias eu tinha todos os programas de ponta que podia precisar.
Desde então, eu tenho carregado o laptop comigo pra todos os cantos. Sua existência me permitiu fazer algo totalmente inédito até então: tirar a segunda pra resolver as coisas da faculdade em casa, e não colocar o pé na rua o dia inteiro. Meus colegas de casa, totalmente desacostumados com minha presença assim, tão prolongada, perguntaram se estava tudo bem comigo, o que havia de errado. Eu me senti feliz da vida, e contente de ver como o serviço realmente rendeu.
Graças às tecnologias de ponta aqui da ilha, meu computador capta redes sem fio de onde estiver; elas são bastante comuns aqui, e já usei a rede da KE, da casa do chefinho Roger e da faculdade. E a de casa também, claro. Agora consigo ler e-mail e conversar no Messenger da minha cama, levantar e fazer um chá, se der vontade de trabalhar eu trabalho, se não der, não trabalho; nada daquela programação incessante de quando tinha que usar o computador alheio.
E por que Macedo Afonso, ouço vocês perguntarem. Bem, meu branquinho laptop se chama assim porque, primeiro, é um Mac, e, sendo Mac, tinha que ter um nome que assim começasse. Além disso, tem a mais que merecida homenagem ao tio Celso (Afonso Celso, para os alienígenas), sem o qual eu não estaria aqui. Portanto, Macedo Afonso.
Ele já me faz companhia o dia inteiro, o tempo todo. E eu nem instalei joguinho nenhum nele ainda…