Eu acho que posso seguramente dizer que Londres é a cidade mais internacional do planeta. Acho difícil que tenha alguma outra capital com mais imigrantes do mundo todo. Se alguém souber de uma concorrente, me avise que eu vou querer conhecer pra comparar.
Me lembro da sensação de fascínio antropológico que eu sentia nas duas semanas iniciais em que tomei metrô (antes de Angelina Norma entrar na minha vida). Você está lá, sentado, acompanhando as estações, e de repente as pessoas do seu lado começam a conversar animadamente em alguma língua que você nunca ouviu. Daí você olha pro lado e tem um sikh de turbante. Olha pro outro, e tem uma chinesa lendo um jornal em pictogramas. Você chega à conclusão de que o mais raro em Londres é ser britânico mesmo.
Qualquer receio que eu tinha de ser "o estrangeiro da classe" na minha faculdade se dissolveu quando os alunos se apresentaram e eu vi que dos 60 alunos do mestrado só 2 são britânicos. Na minha classe tem um monte de gregos, um egípcio, alemães, mexicanos, coreanos, portugueses, japoneses… É melhor que a ONU.
E, se eu queria me sentir especial por ser um brasileiro em Londres, rá, vã ilusão. Brasileiro em Londres dá mais que formiga em pote de açúcar. Voce esbarra com gente da pátria amada idolatrada salve salve o tempo todo. Anda na rua, e pega brasileiro falando em português com outro, ou no celular. Vai no supermercado, e tem alguém com uma camisa da seleção. Vai numa balada, e de cada três grupinhos que você passa, um é tupiniquim. Chega a incomodar.
Os imigrantes estão por todas as partes aqui, e, em geral, nos serviços que os britânicos não querem fazer. E, para isso, os ingleses aprenderam a ser supertolerantes com seus capachinhos. No supermercado, a caixa mulçumana está com a cabeça coberta com o véu, os funcionários passam instruções entre si em espanhol, e o segurança te olha com aquela cara de quem sabe que seus antepassados zulus bebiam água de coco com os crânios dos invasores brancos.
Uma das especialidades subempregaticias brasileiras aqui em Londres é a faxina. Porque, já é de conhecimento mundial, ninguém faz unhas, depilação e faxina como as brasileiras. Quer ver banheiro brilhando, janelas praticamente invisíveis e roupas passadas sem nenhuma ruguinha, chame uma brasileira. E, conversando com meu chefe no Jornal, descobri que as faxineiras brasileiras aqui honram a tradição da terra em que vieram, e, além de deixar a casa impecável, continuam fazendo aqui do outro lado do Atlântico coisas como mudar todos os móveis de lugar, queimar sua camisa preferida quando passam a roupa, e quebrar quadros e objetos decorativos por acidente.
Na casa onde moro agora, dividem o lar comigo uma holandesa, uma finlandesa e um inglês. As conversas por telefone são todas em línguas mutuamente incompreensíveis, e, nas poucas vezes que conseguimos estar todos juntos para conversar, metade das piadas e casos engracados têm que vir com notas do tradutor.
No bairro em que moro a população é predominantemente nigeriana. É algo por demais interessante. Existe locadora de filmes nigerianos (em que todas as fitas tem negões na capa), cabelereiros especializados nas últimas tendências africanas, armazéns cheios de iguarias da Nigéria, é o máximo. Você anda na rua e vê as negonas lindas passando com roupas estampadas de várias cores e chapéus fantasticamente gigantes, se sentindo as mais lindas da terra. Quem quiser compreender melhor o modo de pensar dos nigerianos, pode ser esse texto, que dá uma boa idéia de como eles são.
Quando eu fui morar nos EUA, aprendi montes sobre o American Way of Life. Agora, aqui na ilha, pra minha surpresa posso ter um aperitivo dos ways of life de vários países. Esse investimento está valendo mais a pena que eu esperava.