Em se considerando tudo o que podia ter acontecido nas minhas primeira semanas aqui em Londres, até que o lugar que eu arranjei pra morar não é dos piores. O prédio é muito bacana, e fica literalmente do lado da faculdade. A água quente funciona a maioria das vezes, e tem máquina de lavar roupa, micro-ondas, e um banheiro só pro meu quarto.
Mas rachar o quarto com mais dois não é fácil, e um apartamento com mais sete, menos ainda. Não dá pra ter um momento de privacidade, e, pra conviver bem, você tem que levar na esportiva várias coisas, como seus outros dois colegas de quarto resolverem assistir TV quando você está tentando ler, ligarem ou desligarem o aquecimento quando lhes dá na telha, e varrerem a sujeira pra trás da porta e lá a deixarem dias e dias. Mesmo com um banheiro só pro nosso quarto, ainda se está dividindo o dito com mais dois, nenhum dos quais confere se a descarga, levemente defeituosa, funcionou, várias vezes te deixando presentinhos indesejáveis. E um dos dois usa dreads, que não devem ser lavados há meses, o que resulta em cabelo no ralo da pia, cabelo no ralo do chuveiro, e montes de cabelo no chão do quarto. Nem varrendo todos os dias o quarto, como venho fazendo, eu consigo vencer aquela fábrica de cabelo sujo.
Além disso, o apê não tem sala, e a única cadeira existente é uma que fica na frente do lixo. Mesa então, nem pensar. Minhas refeições todas desde que cheguei foram feitas segurando o prato na mão mesmo, quando tem prato. Porque, claro, oito pessoas usam os utensílios, mas nem todas os lavam logo depois de usá-los, então volta e meia acontece de não ter um copo limpo.
Assim que minha situação aqui na ilha começou a ficar menos instável, comecei a procurar um lugar pra morar de novo, agora com mais calma. A meta era encontrar um lugar com um quarto só pra mim, pagando no máximo o mesmo que já estava pagando, o que por conseguinte significaria morar mais longe. Comecei a caçar lugares nos sites de anúncios imobiliários, e recomecei o processo de ligar para as pessoas, marcar de visitar, etc. e tal.
Escolher onde morar é algo meio esotérico. Porque não se trata apenas avaliar as condições da casa, do banheiro, o tamanho do quarto, onde lavam e penduram a roupa etc. Você tem que sentir a vibração do lugar, e nos poucos minutos de visita avaliar se conseguiria conviver com as outras pessoas que lá moram. Conseguir um equilíbrio entre todos os fatores é difícil. Nessas, por exemplo, já visitei casas que o povo era até bacana, mas o lugar era longe demais e estava caindo aos pedaços, então não dava mesmo. Outra vez, um cara me mostrou dois apartamentos, e eu facilmente escolheria o que tinha o quarto menor, porque as pessoas lá e o feeling geral desse apartamento era muito melhor que o do outro com o quarto grande.
Eventualmente, descobri um site da minha universidade em que estudantes com quartos vagos em casa e pessoas que querem alugar quartos para estudantes colocam anúncios. Encontrei um de uma casa bastante perto da faculdade, liguei para os responsáveis e no dia seguinte estava lá. Fica numa rua a dois quarteirões de uma avenida, afastada o suficiente pra ser silenciosa, e cheia de sobradinhos todos iguais. A casa está em bom estado, o quarto é grande e tem cama de casal, estante, guarda-roupa e cômoda, os moradores são todos estudantes de diferentes partes do mundo. Sinceramente, a melhor opção que apareceu em muito tempo. Eu gostei de lá, eles gostaram de mim, e dois dias depois me ligaram dizendo que o quarto era meu se eu quisesse.
Agora estou eu aqui me virando pra juntar todo o dinheiro necessário pra pagar o primeiro mês mais o depósito, e descobrir como vou fazer pra levar meus pertences todos de um lugar pro outro, nessa minha vida sem carro. Mas isso na verdade é o de menos. Em poucos dias, voltarei a ter território próprio, e, se tudo der certo, vou viver com pessoas com quem posso até conversar. E não varrerei mais cabelos no quarto além dos meus.