Por mais que eu seja alguém cosmopolita, acostumado a todos os procedimentos modernos, existem modus operandi em outros países que simplesmente escapam à sua compreensão. E daí, quando um nativo bondoso se padece do estrangeiro que não tem esse tipo de hábito civilizado em sua terra natal e te explica como tudo funciona, você se sente um aborígene.
Domingo fui guardar minha bicicleta na garagem do prédio onde estou morando pela primeira vez. Pra começar, acostumado ainda a andar pela direita, entrei na rampa errada e fui descendo a espiral até a porta da garagem na contramão, sorte que era tarde e não veio nenhum carro no sentido contrário. Daí tentei descobrir como abria a porta da garagem e não vi nada que me desse uma luz. Então subi de volta, fiquei do lado de fora da porta de vidro fazendo sinais pro porteiro, que, depois de uns dez minutos, me viu e veio me acudir. Na hora me disse que eu não podia deixar a bicicleta em cima, que tinha que guardá-la na garagem, e eu disse que tudo bem, mas não sabia abrir o portão. “’Xeu te mostrar”, disse ele, e desceu comigo até a porta da garagem. “Você tem uma chave eletrônica?”, disse ele, se referindo ao chaveirinho que abre magneticamente as portas essenciais à segurança do prédio. “Sim”, disse eu. “Então”, disse ele, na frente do portão da garagem, “Você aproxima ele aqui no painelzinho e o portão abre”, disse ele, aproximando minha chave eletrônica a um painelzinho que eu não tinha visto porque simplesmente não imaginava que podia existir, e o portão abriu. Mais lindo ainda, descobri no dia seguinte, é que pra sair não precisa aproximar chaveirinho, é só chegar perto do portão que ele abre sozinho.
Terça continuei minha busca por um capacete de ciclista que fosse barato e não fosse ridículo. Encontrei um candidato em potencial numa loja de bicicletas próxima à JD, pus na cabeça pra ver como eu me sentia dentro dele, e um tiozinho, aparentemente gerente da loja, disse que tinha um espelho pra eu me ver na outra parede. Fui lá, me olhei, e, para a minha decepção, o capacete ficava pequeno, não encaixava direito na minha cabeça, e eu ficava parecendo um fósforo. Voltei pro tiozinho e perguntei se ele não tinha um capacete daquele num tamanho maior, que aquele tinha ficado pequeno. “Não, rapaz, é assim, veja”, diz ele, colocando o capacete de volta no meu cocoruto. “O ajuste é aqui”, disse ele num tom de quem explica a coisa mais óbvia do mundo prum retardado, e puxando umas tiras de plástico na parte de trás do capacete que também jamais me ocorreria sozinho que fossem ajustáveis.
Mas o mais ridículo mesmo foi ontem. Depois de comprar um envelope, fiz minha primeira visita ao correio. Entrei na fila, e na minha vez entreguei a carta pro atendente, dizendo através do vidro que queria enviá-la pro Brasil. Ele me devolve a carta e me manda pesar – e daí que eu vi que aqui eles deixam a balança das cartas do lado de fora do balcão. Uma vez pesada, ele me dá o selo e um retangulinho de papel escrito “air mail”. Todo orgulhoso de já estar acostumado com a tecnologia dos adesivos que você lambe e cola (aprendi quando morei nos EUA), lambi a borda do envelope e o fechei, e ele colou. Lambi o selo, coloquei-o na parte da frente do envelope, e ele colou. Lambi o papelzinho do air mail, coloquei no envelope – e nada. Não devo ter lambido o suficiente, pensei, e lambi de novo, coloquei no envelope, e o papelzinho miseravelmente se soltou como se não houvesse baba nenhuma nele. Eu ainda insisti mais uma vez, e nada. Muito sem jeito, voltei pra fila, e perguntei pra uma mocinha como é que grudava aquilo no envelope. “É só tirar a parte de trás dele”, disse ela, toda complacente. Daí fui prestar atenção no adesivo do air mail, e vi que ele era autocolante, que nem figurinha. E eu lá lambendo o papelzinho. Colei o selinho no envelope e o coloquei na caixinha do correio rápido, antes que alguém tentasse me ensinar outros rudimentos da civilização.
E só fazem três semanas que estou aqui…