Eu, comecando um frila novo, sou informado de que preciso ter uma conta no banco pra receber o pagamento. Bem, realmente, isso faz parte da vida civilizada, eu teria que fazê-lo mais cedo ou mais tarde, gente grande não vive sem conta no banco, vamos logo resolver essa parte da minha vida, uma coisa a menos pra me preocupar no futuro.
Perguntei pro povo da JD em que banco eles têm conta, e me reponderam que é no Royal Bank of Scotland. Fui ver o que era necessário para abrir uma conta: identificação (passaporte) e comprovante de endereço. Eu não tinha como conseguir esse último, já que na minha atual residência moram oito pessoas, nem haveria conta que chegasse pra comprovar residência de tanta gente, e, de qualquer maneira, o dono do apê que paga as contas, a gente nem vê a cor delas. Mas uma carta da minha faculdade dizendo que eu dei aquele endereço pra eles deveria ser suficiente.
Pedi uma carta da minha faculdade dizendo que eu moro onde moro (que tinha que ser dirigida especificamente para a agência que eu ia abrir conta, demorou dois burocráticos dias para ficar pronta), e então fui lá na agência mais próxima do Royal Bank of Scotland, munido de documentos. Cheguei no balcão e disse que queria abrir uma conta. A mocinha me tratou como gente normal até o momento que viu meu passaporte. Daí me pediu meu comprovante de endereço, e eu disse que tinha a carta da faculdade. Ela começou a me explicar, naquele tom professoral utilizado com os estrangeiros, que eu precisava trazer uma conta com o meu nome. Eu disse que não tinha como colocar uma conta no meu nome, mas carta deveria servir. Ignorando o que eu disse, ela me deu um folheto, apontou pra uma lista e disse pra eu trazer um daqueles documentos que serviam como comprovante de residência. Eu olhei a lista, encontrei o item que dizia "letter from college or learning institution", e disse que já tinha tudo o que era necessário.
Sem saber o que fazer, ela disse que não, e eu pedi pra chamar o gerente. Que também era estrangeiro, provavelmente indiano, ouviu o meu caso, pegou minha carta, pediu licença, foi fazer ligações misteriosas, e voltou dez minutos depois dizendo que podiam abrir uma conta de estudante pra mim, se eu fizesse um depósito inicial de cinco mil libras. Me pareceu uma contradição em termos abrir uma conta de estudante com cinco mil libras, falei pra ele que obviamente aquilo era impossível, ele lamentou e disse que não podia fazer nada.
Assim começou minha peregrinação por bancos e bancos. Nos dias seguintes, passei no HSBC e no NatWest, com a carta da minha faculdade, contando minha triste história, que não conseguiu comover ninguém. Primeiro diziam que aquela carta não era pra eles. Daí eu dizia que estava ciente, mas conseguiria uma igualzinha endereçada a eles se eles me abrissem a conta. Daí diziam ou que não aceitavam carta como comprovante de endereço, ou que só aceitavam cartas de faculdades específicas.
Começando a ficar exasperado, fui me aconselhar na secretaria da faculdade, que me disse pra tentar ir no Barclays e no Abbey National, que em teoria são bancos mais fuleiros e aceitam qualquer zé mané pra abrir conta. Foram bacanas e em apenas cinco horas me deram cartas dirigidas às agências mais próximas desses bancos, e no dia seguinte lá fui eu de novo, cheio de esperanças.
No Barclays, a mulher olhou pra mim, olhou pros meus documentos, disse que talvez conseguisse me fazer uma conta das mais básicas, em que eu só teria direito a um cartãozinho pra tirar dinheiro da conta, e me deu um folheto com uma lista de documentos, dos quais eu teria que trazer três – ou seja, passaporte e DOIS comprovantes de endereço. Já no Abbey National, a mulher, com muita má vontade, me disse que só me abriria conta se eu tivesse dois anos de residência no Reino Unido, então que eu voltasse dali a dois anos.
A situação era ridícula; eu lá querendo dar meu dinheiro pros bancos, e eles se recusando a recebê-lo. Me sentindo mais descartável que copinho de plástico pisado, fui pra faculdade, acabei comentando minha situação calamitosa com o povo da classe, e um dos gregos me disse pra ir até a agência do HSBC em Covent Garden, que cinco dos estrangeiros do nosso curso já tinha conseguido abrir conta lá com uma carta da nossa facul. Voltei pra secretaria e pedi mais uma cartinha, mas dessa vez, precavido, quando fui trabalhar no megafrila, pedi pra que eles escrevessem uma carta pro banco também.
E assim, no dia seguinte, fui pra essa agência. Entrei, disse que queria abrir uma conta, e mostrei a carta do megafrila. Como por encanto, passaram a me tratar com respeito, me levaram pra uma salinha, e eu saí de lá com conta corrente, poupança, cartão de débito, cheque especial e cartão de crédito. E ainda me perguntaram se eu queria um café.
Só o poder das instituições pra vencer os receios quanto a nós, pobres zés manés.