Settling

Bien, bien, bien, essa última semana.

Basicamente, passei a semana passada numa corrida contra o tempo, vendo anúncios de apartamentos com quarto pra alugar, entrando em contato com as pessoas, descobrindo onde os ditos eram, e indo vê-los. Muita coisa ruim e barata, outros bons mas caros, e equilibrar os fatores preço e muquifo não foi fácil. Finalmente, na quinta, encontrei dois lugares bacanas. O mais caro ficava numa casa meio distante, mas muito lindinha, com um quarto só pra mim, sala, DVD, máquina de lavar roupa, secadora, poucas pessoas aparentemente bacanas. A outra era dividir um quarto com mais dois colombianos, num apartamento onde moram mais cinco pessoas (em três quartos), a um minuto a pé da faculdade, TV, máquina de lavar roupa, um banheiro só pro nosso quarto.

Minha vontade real era pegar a casinha com quarto só pra mim, mas não tinha os meios financeiros ainda, tinha que pagar o primeiro mês de aluguel e um depósito do mesmo valor. Então peguei o quarto com os colombianos, o que na verdade não está sendo tão ruim assim. Eles são bastante gente boa, os horários do povo da casa não batem muito, então a gente não fica se trombando. O apartamento é num prédio moderno, o quarto é razoavelmente grande, e agora eu tenho como assistir a TV britânica, o que tem se provado um exercício bastante interessante.

Sexta eu fui tentar vender meus gibis americanos que eu tenho colecionado por tantos anos. Quando eu os avaliei por e-mail numa loja dos EUA, eles teriam rendido uma grana razoavelmente preta, mas a dificuldade em mandar os gibis pra lá, receber um cheque, descontar o dinheiro aqui, etc. e tal, acabou me desanimando, e pensei que seria mais fácil vendê-los aqui em Londres. Ledo engano. Fiquei andando de metrô carregando uma caixa pesada cheia de gibis, levando de uma loja pra outra, e ninguém as quis. Aparentemente porque são novos demais (têm “apenas” dez anos) e a maioria já saiu em edições encadernadas – os britânicos não são colecionadores doentes como os americanos. Desolado, voltei pro metrô, quase desistindo, mas resolvi tentar mais uma loja antes de voltar pro albergue onde ainda estava instalado.

Estava prestes a sair do trem, fui procurar minha carteira no bolso… e ela não estava lá. Desesperado, procurei em volta, e nada. Saí do trem, tirei tudo da mochila, da caixa, e nada. Peguei um trem no sentido inverso e voltei pra estação de onde tinha saído, procurei em todos os lugares onde tinha passado, perguntei pros seguranças, nem sinal da minha carteira. Nesse ponto pensei que seria muito mais simples sentar lá e ficar pedindo por “Any spare change, please, sir?” pro resto da vida, como os pedintes fazem aqui, mas recolhi os caquinhos da minha auto-estima e voltei pro albergue, desolado.

Por sorte, eu ainda tinha 20 libras na minha mala, as quais, com as outras cinco que me deram de volta do depósito que eu tinha deixado quando entrei no albergue, deu pra comprar mais um passe de metrô pra semana inteira, já que o que eu tinha (e que durava mais um dia) estava na carteira perdida. Carreguei a big mala que ainda estava comigo (tinha levado a outra pro apê dos colombianos no dia anterior) até minha nova residência, e passei o final de semana em estado de absoluta retenção de despesas, fazendo as poucas libras que eu ainda tinha durar o máximo possível.

Passei a maior parte do dia lendo os textos que já nos deram pra estudar no mestrado, e no domingo fui pra National Gallery, que é de graça, ver centenas de quadros, vários dos quais a gente já viu em livros de arte ou de história desde sempre, e se esquece que eles existem de verdade em algum lugar do mundo. Vi os girassóis de Van Gogh, por exemplo. Às três e meia tinha um tour guiado grátis, o tiozinho explicou quatro quadros pra gente, foi bem bacana.

Segunda fui na Jungle Drums, uma revista para brasileiros em Londres, cujo povo eu já tinha contactado na semana anterior. Um dos donos, o Juliano, tinha me prometido emprestar um dinheiro, o que realmente fez e me tirou do sufoco de ter que viver os próximos 30 dias com 3 libras. Além disso, maravilha das maravilhas, eles precisavam de alguém pra trabalhar na arte da revista, e me aceitaram lá! Iea! Agora, instalado e empregado (apesar de sem carteira), posso ficar muito mais feliz, tranquilo e contente.

No mais, a facul continua bem, agora as aulas de verdade vão começar, conversei ontem com o meu orientador, acho que vamos nos dar bem. Está fazendo um frio danado, mas não nevou, bem ou mal.