Desde que eu me mudei pra Sampa que eu ando de ônibus. Muito. Por vários anos São Paulo foi pra mim um imenso borrão entre pontos de ônibus. Eu podia não saber te dizer como faz pra chegar em algum lugar, mas com certeza eu poderia te falar que ônibus você tomava pra chegar lá.
Depois de formado, já mais gente grande, comecei a me cansar do transporte coletivo. Não que eu o considere abaixo de mim (opinião que meus irmãos, infelizmente, acabaram tendo; eles são capazes de ligar pra casa pra alguém buscar eles no centro de Campinas, que não é metade de Sampa, ficarem lá plantados esperando o coitado que saiu de carro pra pegá-los, a pegar um busão a um quarteirão de onde estão pra descer a um quarteirão de casa. Nem são dois ônibus, um só.). Mas depois de quatro anos cansa ter que se programar de sair uma hora e meia antes de qualquer compromisso, não ter como voltar depois da meia-noite, deixar o leitinho das crianças no táxi e coisas assim.
Minha primeira solução, depois que fiz todas as contas, era comprar uma Honda Biz. Afinal, faz centenas de quilômetros por litro de gasolina, pega menos congestionamento, é bem mais barata que um carro, e custa menos em imposto, estacionamento, etc. e tal. Sem falar que, na Editora, têm vaga no estacionamento quem é de gerente pra cima, quem tem mais de dez anos de empresa, os sortudos sorteados na repescagem de vagas, e quem tem moto.
Decisão que causou polêmica em todos os círculos sociais, que invariavelmente me diziam que é muito perigoso, que iam me tirar de cima da motoca com uma arma e levá-la embora, que eu ia sofrer um acidente e ficar paraplégico. Por que eu não comprava um carro? Até eu explicar que, comprando um, me tornaria financeiramente seu escravo pro resto de minha existência, muitos desistiam de acompanhar a discussão.
Mas sempre existem opções. Thompson foi a primeira pessoa que eu conheci que usava a bicicleta como meio de transporte. Nunca tinha sequer considerado a possibilidade, inda mais numa cidade como São Paulo. Mas ele ia pra cima e pra baixo pedalando, e aparentemente sem maiores estresses. Fiquei muito impressionado com sua coragem.
E então, fui pra Santiago. Passei 23 dias andando pelo menos seis horas por dia. Quando não dez. No dia que mais me esforcei, fiz 46 km num dia só. E, enquanto enfrentava as paisagens espanholas, várias vezes o pessoal que estava fazendo o Caminho de bicicleta passava por mim. Confesso que inúmeras vezes fiquei com uma inveja secreta de como eles iam muuuuito mais rápido que eu, fazendo 80 km por dia com o pé nas costas.
Quando voltei, analisei bem minha insatisfação com os meios de transporte, minhas invejas ibéricas, os quilos perdidos, e resolvi aceitar o desafio. Emprestei a megabicicleta do Anselmo, que, quase nova, estava esquecida no quartinho em Campinas, comprei um capacete, e passei a ir e voltar pro trabalho pedalando.
Aqueles que se revoltavam com meus planos motociclísticos ficaram duas vezes mais revoltados com essa decisão. Não tanto porque eu podia ficar paraplégico, mas porque como eu ia fazer nas subidas? E pra voltar pra casa às três da manhã?
Bem, o começo foi bem inseguro, já que eu não estava acostumado a pedalar tanto, e fazia anos que eu não andava de bike. Me assustei com as velocidades que você alcança, tinha muito medo do trânsito, levava a magrela a pé nas subidas. Mas fui descobrindo um prazer insuspeitado em me locomover em duas rodas por aí.
Logo no começo comecei a dispensar a meia hora estúpida que eu gastava na ergométrica da academia; chegava e fazia apenas a musculação, já que já tinha pedalado pra chegar lá, e o faria mais ainda pra voltar pra casa. A performance foi melhorando, eu fui descobrindo os caminhos menos íngremes pra subir no morro onde fica meu prédio, e aprendi a lidar com os veículos motorizados. Em pouco mais de uma semana já estava indo para outros lugares de bicicleta. A cidade agora estava aos meus pés. Ou às minhas rodas.
Desde então, já fui no aniversário da Julia, na Vila Olímpia, em cima da minha fiel bike, e descobri que a Faria Lima é extremamente bicicletável; já fui ver Rê Steffen dançar no Teatro Gazeta, deixei meu veículo preso no poste ao lado do pipoqueiro, voltei depois pra Editora (onde cheguei todo eufórico e cantante, viva a serotonina), trabalhei mais três horas e voltei pra casa, tudo na minha amiga bicicleta.
Esperar a condução agora me dá aflição, porque eu penso que naqueles dez minutos já podia estar em Pinheiros; ir a pé pra esquina me parece muito devagar, porque se percorre essa distância muuuuito mais rápido pedalando.
Cheguei à conclusão de que a bicicleta é a solução ideal para o caos urbano: você faz exercício, chega rápido onde tem que chegar, não polui o meio-ambiente, não pega congestionamento e não gasta com combustível. Sem falar que você sente o vento na cara e o cheiro das flores à noite, é ótimo. As pessoas deviam deixar de ser preguiçosas e todas começarem a usar bicicletas. Assim quem sabe os estacionamentos passariam a aceitar guardá-las. Nenhum ainda me deixou prender a bike num cantinho, tirando o do shopping Center 3; mas até agora eu venho deixando ela presa em postes e ninguém mexeu nela.
Um dos meus planos em Londres é, assim que eu sacar a cidade, descolar uma bike lá e continuar me locomovendo em duas rodas. Se aqui em Sampa, que é cheia de morro, eu já estou tirando de letra, imagina lá, que é plano?