CS: San Juan – Burgos – Hontanas

Hontanas, 16 de outubro, 20:20h

De Roncesvalles a Santiago
no se llega con sólo un trago
si vas a hacer el camino
imposible sin daile al vino

De Madrid, Catalunya, Toledo
Bilbao, Brasil
Andalucia y Valencia
todos unidos al vino
brindando por el camino
y fijále que hasta al argentino
se une a lo del vino
a este ritmo a Santiago
llegamos haciendo el pino

Pensareis que con tanto vino
nos pueda dar un calambre
pero recuerda amigo
el vino hace sangre

Não pude escrever ontem, muito o que fazer e acontecer.

A caminhada do Albergue do Inferno até Burgos não foi difícil. Acompanhei Ángel e sua patota por alguns trechos, mas os deixei pra trás numa das paradas intermináveis que eles fazem, o que acabou sendo melhor.

Se Logroño é uma Araraquara de mil anos, Burgos é uma Campinas de mil anos. É nessas horas que eu vejo como sou urbanóide e adoro cidades grandes. Minha alegria ao ver carros, trânsito, viadutos, congestionamento e poluição foi sem fim, para o desgosto do superguia, que foi escrito por algum natureba que gostaria de viver numa casa no campo e ouvir muitos rocks rurais.

Andei muito pela zona industrial até chegar à urbana, onde finalmente encontrei onde comprar um cartão telefônico que me permitisse ligar pra casa mais baratinho. Depois andei andei e andei até chegar na Catedral de Burgos, que é de cair o queixo. Um disparate de tão linda. Depois de tirar muitas e muitas fotos, andei mais um tanto até o albergue, que ficava no campus da universidade.

Atacando a Catedral de Burgos pelo flanco.
Ela de frente, toda linda, com tempo meio feio.
Detalhe da fachada .

Cheguei lá mas não parei. Depois de tomar banho, fui de volta pra cidade velha de Burgos. A temperatura está caindo, o vento está ficando severo, e eu precisava de um casaco mais fortinho. Não dava mais pra postergar, tirei dinheiro no cartão de crédito internacional de Lermano e fui às compras.

Cheguei ao centro por um parque muito lindo que fizeram às margens de todo o rio que passa por Burgos. Vi o monumento a El Cid, depois achei onde comprar um casaco, muito bacana, aliás, e daí corri pra poder ver a Catedral por dentro.

Monumento a El Cid, em Burgos.
Entrada para a parte aberta a exposição da Catedral.

Que consegue ser mais linda ainda. Cheia de capelas e coisas pra ver, cada cantinho tem uma escultura, fiquei andando lá embasbacado e me arrependendo de não ter pegado um guia eletrônico que me explicasse tudo. Fiquei até contente de não poder tirar fotos, porque ia gastar o cartão todo e não ia registrar a Catedral direito.

Saí de lá correndo pra chegar no refeitório universitário e ter a primeira refeição decente e barata em dias. O Xave a Joana estavam se despedindo, iam voltar pra casa, estava tendo uma festinha de despedida, foi bacana.

Primeira refeição colorida em dias, no restaurante universitário, em Burgos.
Bandejão de despedida de Xave e Joana.

No dia seguinte, fiquei muito contente de ter comprado o supercasaco, porque estava fazendo um frio terrível, pior ainda com o vento. Ventou o dia inteiro, a gente andava por uma planície que não oferecia resistência nenhuma à ventania, fiquei esperando ver passar uma vaca voando a qualquer momento. Andei de óculos escuros não por causa do sol, mas pra proteger os olhos da poeira. Tinha que fazer força pra resistir aos pés-de-vento, me inclinando pra frente pra caminhar, parecia cena de filme.

Fonte esquisita em Villalbilla.
Shana sendo açoitada pelo vento inclemente.
Tudo plano e marrom. Para parar o vento, apenas nós.
Hornillos del Camino, láááááá ao fundo.

Certo momento, depois de muito sofrimento e horas de caminhada, encontramos a placa que dizia “Hontanas, 0,5 km”. E nem sinal dela. Andei mais 400 metros, e vi uma cruzinha. Mais cinquenta, e daí finalmente encontrei a cidade escondida num buraco. A cruzinha era da torre da igreja, que ficava na nossa altura antes de descermos a ladeira de entrada da vila. Mais uma pro caderninho.