Ponferrada, 21:34h
Hoje foi um dia muito esperado. A Déia já tinha me falado da Cruz de Ferro, um lugar em que cada peregrino que passa deixa uma pedra que trouxe de casa. Eu não trouxe uma de Sampa, porque no processo de fazer as malas me esqueci, mas carreguei uma no bolso desde o monumento ao peregrino depois de Pamplona. Anteontem pensei que a tinha perdido e fiquei muito triste, mas depois a encontrei no fundo da mochila e não me separei mais dela.
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| A pedra que carreguei de Pamplona até a Cruz de Ferro.. |
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A idéia é que você deixe a pedra e peça proteção; além disso, parece que tem um trecho do Apocalipse que diz que no Juízo Final as pedras vão todas falar, então essa que você deixou, em teoria, testemunharia como você foi legal e peregrino.
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| Eu ao lado da Cruz de Ferro. |
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Saímos cedinho de Rabanal e andamos debaixo de chuva fraca, mas fria. A manhã estava cheia de névoas, e atravessamos ruínas sob brumas mais potentes que as de Avalon. Depois de caminhar duas horas, chegamos na Cruz.
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| Foto do chão do morro. Minha pedra ficou em cima da pedrona branca no meio da foto. |
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Nesses últimos tempos as pessoas ampliaram um pouco o conceito da pedra e, no alto do monte da Cruz, além de montes de pedras, tem sapatos, meias, latinhas, fotos 3×4, enfim, o que dá na telha deixar. O superguia acha isso o fim, mas tenho certeza de que, se há 600 anos as pessoas viessem deixando lá uma camisa usada, e agora aqui fosse uma pilha de dez metros de pano podre, ele ia achar lindo e tradicional. Fiz meus pedidos e depositei minha pedra lá em cima com carinho, pra não dizerem depois que eu joguei pedra na cruz.
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| O povo agora larga lá chinelo, camisa, garrafa d’água… |
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Andamos mais uma hora e pouco, e chegamos num vilarejo abandonado chamado Manjarín. Num de seus trechos típicos, o superguia diz que
Tomás, el hospitalero, ha conseguido crear en un pueblo abandonado un reducto de hospitalidad a la angua usanza. (…) Pocas comodidades, mucho trasto viejo y un cierto aire templario. El lugar puede gustar o no, pero a nadie deja insensible. (…) Refugio: gestionado por el Círculo Templario de Ponferrada, es uno de los más humildes y a la vez auténticos de la ruta. Tomás, el hospitalero, es una institución en el Camino de Santiago y destila hospitalidad por los cuatro costados. Ofrece 30 plazas en colchonetas en el suelo, y desde hace poco tiene luz eléctrica. Hay una pequeña cocina, único lujo del albergue, que no cuenta con agua corriente ni inodoros.
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| A entrada do albergue em Manjarín, com placas indicando as distâncias para Roma, Jerusalém, Machu Pichu… |
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Nem parece tão mal assim, né? Pos bem, paramos lá um pouco porque ofereciam uns biscoitinhos grátis, e, sinceramente, já vi favelas mais requintadas e acolhedoras que aquele barraco. Tinha um cara serrando lenha pra noite, e uma mulher meio perdida. Dez minutos depois que cheguei, quando já estava indo embora, aparecem uns caras com fantasias de templários que eu já vi jogador de RPG fazer melhor, e começam a tocar um sino e um povo se junta em volta. Com medo de me fazerem participar de alguma coisa, passei a mão em mais dois biscoitos e chispei dali. Se tivesse tido a infelicidade de escolher aquilo como parada, tenho certeza que superaria de longe San Juan de Ortega. Quanta tradição, passar uma noite como na Idade Média…
O resto do dia foi tranquilo, sem grandes sofrimentos. A paisagem mudou completamente, nada mais daquela planície marrom e cinza, tão plana que se vê a curvatura da terra; agora temos montanhas, árvores, riachinhos, é tudo muito lindo. A gente não sabe a falta que faz o verde pra andar até que tromba com ele de novo.
Chegamos em Ponferrada 6 e pouco, muito consados. Em León, como estava com bolhas nos dois pés, resolvi comprar o tal do Compeed, uma pele artificial que todo mundo diz que é miraculoso. Bem, não pra mim. O negócio se gruda e se molda com o calor do corpo. Como minhas bolhas ficam entre os dedos dos pés, ele se moldou ao vão deles quando ando, que não é bem a posição deles relaxados. Nos dois dias que fiquei com o troço fiz bolhas por baixo do Compeed anyway, o suor fez ele se soltar da pele e se grudar nas meias, e a criação de germes se deu tão bem ali entre um e outro que quando eu tirei o maldito Compeed estava tudo fétido e podre. Voltei ao bom e velho método de furar as bolhas com linha.
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| Totem no albergue de Ponferrada |
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| Um castelo em Ponferrada. |
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A única cueca com costura que eu trouxe não aguentou o tranco e rasgou (ou seja, das 5 que eu trouxe agora tenho 3, já que me roubaram uma do varal de Burgos). A calça marrom está rasgando no lado direito, e as regatas pretas estão furando por causa do atrito. Estou me sentindo o menino-farrapo.