CS: Ponferrada – Vega de Valcarce – Triacastela

El Cebrero, 12:34h

Estou me sentindo como o caminheiro que lá vai indo pro rumo da minha terra; fico aguardando que a qualquer momento alguém me apareça pedindo que por favor faça parada na casa branca da serra. Até porque serra é o que não faltava.

A costumeira chuva vespertina ameaçando quando saíamos de Villafranca del Bierzo

Eu e a Shana fizemos ontem os 38 km entre Ponferrada e Vega de Valcarce, o vale antes de começar a serra. Sabia que não seria fichinha, mas seria melhor que fazer 40 km de serra depois.

Fomos bem rápido até Cacabelos, a um terço da jornada. Lá tivemos mais um típico almoço espanhol. Primeiro, nunca põem mais de uma pessoa pra atender os clientes, não importa quantos haja. Como também só tem mais um na cozinha, o cardápio costuma ser bem limitado, com 3 opções de entrada e 3 de prato principal.

Aqui vivem à base de pão e batata. É pão pra começar, pra tarminar, pra acordar e pra dormir. E batata pra acompanhar tudo. De entrada eu tive um ensopado de carne com batata. E daí, de prato principal, frango refogado… com batata.

Além disso, capricham na gordura. E não acreditam em papel-toalha. Fritam os bifes, batatas e etc., e o prato vem pingando óleo, dá pra fritar outro bife com o que fica no fundo do prato.

Tem uma sopa típica daqui que é basicamente água, pão e alho com alguns temperos. Um dia a Shana foi comer uma, mas não a quis porque, segundo ela, com sua típica assepsia americana, “parecia com algo que fizeram com a sujeira que recolheram do fundo da pia”. Tentei comê-la, mas tinha tanta gordura de bacon, mas tanta, que depois de um tempo desisti de ficar desviando das gorduras e deixei o prato pra lá.

Um dia, vi na TV um programa matinal de culinária e variedades daqui, tipo Ana Maria Braga, em que estavam preparando “Ovos especiais”. As tias faziam batata frita, daí colocavam por cima dois ovos fritos (moles, claro), e daí, pra dar aquele sabor especial, fritavam alho e jogavam por cima, com óleo e tudo. E viva o colesterol!

Sem falar que os sanduíches aqui são de uma sinceridade desconcertante. Se você pede bocadillo de queso, vem pão e queijo, e só. Se quiser um tomate, faça o favor de pedi-lo.

Depois de Cacabellos comecei a me encher da Shana. A gente tinha parado num cybercafé antes de comer, porque ela queria ler seus e-mails. Eu achava que a gente ia almoçar lá mesmo, mas ela disse que queria procurar outro lugar porque não queria comer as refeições congeladas que lá serviam. Então, depois de 30 minutos de internê, gastamos mais 30 procurando um lugar decente, e uma hora comendo. Duas horas parados num dia em que tínhamos que andar 30 km.

Além disso dava no saco como tudo pra ela fede, ou não é higiênico, ou é estranho. Os americanos são muito etnocentristas. Mas ela achou que seria engraçado me mostrar, numa pausa de descanso, no meio da rua, um megacalo que ela tem no pé, que estava quase caindo, e me perguntar se eu queria um pedaço. Isso foi a gota d’água, porque aquilo era nojento. Daí ela me vem com um papo de que a gente tem que acordar mais cedo, e eu respondi que a gente tem é que fazer almoços mais curtos.

Parei de esperar por ela, como vinha fazendo nos últimos dias, e cheguei em Vega meia hora antes dela. Hoje ela saiu antes, eu me aprontei, tirei dinheiro com o cartão de Lermano, o que no fundo é melhor e vai evitar uma briga séria. Sou muito grato pelo o que ela me ajudou, me sustentando essa última semana, mas tanta convivência não estava dando certo. Sem falar que, conversando tanto em inglês, eu não ia praticar meu incipiente espanhol nunca. Agora posso ir no meu ritmo. Saí de Vega às nove e cheguei em O Cebreiro às 12. Muito bom. Agora tenho mais 20 km, 5 horas, moleza.

Névoa de manhãzinha, saindo de Vega de Valcarce.
Depois de quilômetros e quilômetros de planície marrom, os verdinhos voltaram a aparecer. Fez falta.
O marco da fronteira com a Galícia. Os espanhóis deixam mensagens separatistas em qualquer lugar que faça alguma menção às províncias.
Eu no Alto do San Roque. Subi todos os 1270 metros.
Um perro que veio me conferir quando sentei pra descansar um pouco em Fonfría.
A Galícia é toda rural, e cheia de vaquinhas pastando bucolicamente.