Puente La Reina, 16:47h
Primeiro dia de caminhada, aparentemente um sucesso.
Dormi razoavelmente bem no albergue em Pamplona. Havia alguns roncadores no quarto, que me acordaram algumas vezes, quase levantei para virar eles de lado, mas tive preguiça. Às seis e meia o povo começou a acordar e a movimentação me despertou. Um pouco depois a tiazinha do alguergue foi lá acordar aqueles que conseguiam dormir com a luz acesa e o povo falando enquanto se arrumava.
Saí do albergue sete e pouco, e ainda estava escuro. Não consegui ver Pamplona à luz do dia. No entanto, foi bem fácil sair dela; as flechinhas amarelas estavam por toda parte, indicando o caminho.
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| Flechinhas amarelas indicando o caminho, e placas bilíngues em castelhano e basco. |
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Logo na saída cruzei com o Mark, um suíço que morava em Londres. Durante o dia de caminhada fui encontrando mais gente; Ana, uma alemã que está fazendo o Caminho com seu cachorro, Chico, e dorme com ele do lado de fora dos albergues se não o deixam entrar; Elaine, uma neozelandesa que mora na Austrália; Shena, uma americana que trabalhava num campo de golfe que fechou; Xave e Joana, um casal de recém casados que resolveu fazer a lua-de-mel fazendo o Caminho; e duas velhinhas francesas que o estavam fazendo pela segunda vez.
Não houve subidas absurdas; o cenário era bem castanho, cheio de plantações esperando serem feitas.
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| Iglesia San Miguel, em Zariegui. |
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| Ruas desertas e janelas fechadas: parecia cidade-fantasma, mas aparentemente é assim mesmo.. |
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| Monumento ao peregrino no Alto del Perdón. |
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| Me identifiquei com o burrinho de carga. |
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Por volta do meio-dia eu consegui encontrar o primeiro lugar pra comer algo que mais ou menos prestasse, num albergue em Uterga. Até lá tinha passado 16 quilômetros comendo três rolos de caramelo com marshmellow, cobertos de chocolate. Comi um sanduíche de queijo e tomate, bem grande, com um o azeite que o deixava bem gostoso. Depois fui descobrir que isso é uma raridade aqui; sanduíche de queijo, por exemplo, é só pão e queijo, sem uma manteiguinha pra amaciar.
Em Meruzábal eu e o povo que estava comigo nos desviamos um pouco do Caminho pra visitar a igreja de Santa María de Eunate. É uma igreja do século XII, octagonal, pequena, seguindo “el deseño del templo de Jerusalém”, como diz o guia. De lá passei pra Óbanos, outra cidadezinha bem bonita. Essa cidade tem uma história interessante. Diz a lenda que uma princesa chamada Felicia fez o Caminho e, depois, resolveu se dedicar a cuidar dos pobres. Seu irmão, quando soube que ela não ia voltar à corte, ficou tiririca e a matou; depois, ficou cheio de remorso, fez o Caminho também, se mudou para Óbanos e virou santo como a irmã. Se isso serve de consolo pra ela.
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| Peregrinos chegando na igreja de Santa María Eunate. |
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| Igreja na Plaza de los Fueros, em Óbanos. |
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| A criançada, saindo da escola, deu tchauzinho pra foto. |
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Mas emocionante mesmo foi chegar em Puente La Reina, onde o guia indicava que eu deveria encerrar o dia. Basicamente, andei 23,5 km, das sete da manhã às três da tarde, bem.
Essa caminhada hoje foi meio twilight zone, não encontramos viva alma na rua, as janelas todas fechadas, bizarro.
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| Típica ruazinha estreita e sem calçada, em Puente la Reina. |
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Rodei um pouco a cidade depois de tomar banho, visitei a igreja de Santiago daqui, que é impressionante, e vi as vitrines de todos os lugares fechados. O comércio aqui fecha do meio-dia às quatro, a gente chega nas cidades e não tem onde comprar um pãozinho. O povo aqui espalha an´ncios de tudo na entrada dos estabelecimentos, desde aula de Tai-chi-chuan e yoga a casas pra alugar. Vi um anúncio genial numa delas:
ME VENDEN
A3, TDI, 110CV, 150.000 KM
(estoy estupendo, pero… la familia crece y ya pareco el tetris)