CS: Estella – Los Arcos

Villamayor de Monjardin, 11:24h

Rodei Estella ontem a tarde inteira, de hawaianas e pé doído. Não devia, mas não ia deixar de fazer meu turismo. A cidade é razoavelmente grande, cheia de lojas e muito bonita. Tem um parque lindo e um ex-convento que virou cinema.

Igreja de San Pedro de la Rúa, em Estella.
Igreja de San Miguel, também em Estella.

Descobri que pode-se comprar selos em tabacarias, ó só que apropriado. O Gerardo me comprou dez, já estou mandando-os para as pessoas.

À noite resolvi ceder às minhas sérias restrições orçamentárias e comprei comidas no supermercado para fazer a janta no albergue. Comprei macarrão, molho de tomate, atum e biscoitos Príncipe (leve 4 e pague 3, fiquei tão feliz), arrastei minha carcaça mais um pouco pela cidade, manquitolando, consegui ver as igrejas que estavam fechadas antes e fui pro albergue.

A cozinha estava repleta de gente alegre fazendo comida. Uma tia fazia paella para vários, outros esquentavam comida enlatada. Achei uma boca de fogão para mim e comecei a preparar o rango. Vinte minutos depois estava eu sentado na mesona, comendo e conversando com o povo. Era inevitável comparar meu menu do peregrino do dia anterior, tão triste e solitário, com esse meu macarrãozinho universiário tão feliz e contente. Todos conversavam muito, um oferecia vinho, outro ramón com tomate. Sobrou até paella para mim.

A paella coletiva preparada na cozinha do albergue.

Um pouco depois, presenciei uma cena tão bacana: um inglês chegou, bobo que podia fazer comida. O povo não só disse que podia, como cada um deu um pouco do seu prato pra encher um prato pra ele.

Los Arcos, 20:48h

Saí de Estella devagarinho. Meu pé esquerdo doía terrivelmente, mal podia me apoiar nele. A mulher do albergue me disse que eu podia ficar mais um dia lá, mas eu disse que não, não perderia um dia inteiro no mesmo lugar.

Mal pude aproveitar a fonte de vinho, saindo de Estella, em que uma torneira dá água, outra vinho. Bebi um pouco, e logo depois continuei a andar centímetro por centímetro, aprendendo como pisar para que o pé doesse um pouco menos.

Fonte de vinho: da torneira esquerda, sai vinho, da direita, sai água.

Logo depois me irritei com a jaqueta que o pai tinha me dado, que usava pela primeira vez, porque estava suando bicas apesar de estar bastante frio e não estar andando rápido. Tive um acesso de raiva, tirei a jaqueta, tentei pendurá-la na mochila com os alfinetes que a Shena tinha me dado no dia anterior, mas não dava, porque era grande demais. Então olhei bem pra ela, fiz as contas, e a deixei na cerca de uma construção, para que fizesse um operário mais feliz do que me fez.

Fui aprendendo lições de humildade conforme todos iam me ultrapassando. Depois de uma hora e pouco de caminhada dolorosa, encontrei duas velhinhas tirolesas que estavam andando contentes da vida com mochilas maiores que elas. A gente conversou um pouco, elas me perguntaram como eu estava, e eu disse que estava com os tendões doendo. Elas baixaram a mochila e me deram seis comprimidos que, segundo elas, resolveria tudo em meia hora. No estado em que estava eu aceitaria até veneno de rato, e tomei a pilulinha com alegria e lágrimas nos olhos por conta da bondade delas. E, realmente, em meia hora a dor já era bem melhor. Não sei o que me deram, mas funcionou que foi uma beleza.

Pablito, tiozinho famoso que oferece bastões pros peregrinos, comprando pão.

Parei numa cidadezinha em que ofereciam café da manhã grátis, Villamayor de Monjardin. O dono do albergue que oferecia o café morou no Brasil quando era criança, e, assim que soube que eu era brasileiro, correu pra dentro e botou um CD da Clara Nunes pra tocar. Me senti tão importante.

Um dos marcos com flechinha amarela que indicam o caminho.

Depois dessa vila eram quinze quilômetros de sol, sem cidadezinhas onde conseguir água ou parar. Depois de uns cinco quilômetros, encontrei uma blusa de frio que alguém deixou no caminho. “Ra ra ra ra, alguém teve a mesma idéia que eu”, pensei. Passei reto. Depois, um ciclista veio com a blusa na garupa, perguntando se era minha. Não, magina, nem. Pois bem.

A cara da alegria ao chegar em Los Arcos.
Igreja de Santa María, em Los Arcos.
Jesus Cristo brincando de Branca de Neve, na mesma igreja.
A seus pés, uma Maria mó sorumbática.
Teto baixinho e todo decorado.

Cheguei em Los Arcos, me instalei no albergue, caiu a tarde… e começou a fazer um frio do cão. E eu não tinha blusa. Tentei aguentar, mas não dava. Com dor no coração, me sentindo um idiota por não ter pegado a blusa que tinha encontrado no caminho, fui na loja e gastei meu precioso dinheirinho comprando um moleton. E viva as finanças pessoais.

One Response to “CS: Estella – Los Arcos”

  1. Paulo

    Estava pesquisando alguns pontos do Caminho e me deparei com o teu blog. Dei uma rápida lida na página e me interessei em ler o resto. Curti muito. Lembrei de coisas incríveis quando fiz o Caminho em 1991. Ultreya, meu velho!
    Paulo Rogério Lopes