Nota breve

(…) não há qualquer homem na vida de Maria Sara, ainda que pareça impossível sendo bonita como é, não será nenhuma beleza suprema mas é bonita, digo de cara e de figura, quanto ao corpo, à vista, bom, os corpos só se sabe o que valem quando estão despidos, esta é a boa ciência, a das evidências, melhor ainda depois, quando já se conheceu o que está coberto e dele se gostou.

Enormes, consabidamente, são os poderes da imaginação, como neste caso outra vez foi provado, quando Raimundo Silva começou a sentir o próprio corpo, o que nele estava a acontecer, primeiro um movimento de sismo lento, quase imperceptível, depois a palpitação brusca, repetida, urgente. Raimundo Silva assiste, de olhos semicerrados segue o processo como se estivesse recordando mentalmente uma página conhecida, e fica quieto, à espera, até que o sangue a pouco e pouco reflui, como maré que abandonasse uma caverna, devagar, a espaços lançando ainda novas vagas ao assalto, mas é inútil, a maré vaza, são os últimos sobressaltos, por fim não há nada senão um manso escorrer de fios de água, as algas descem espalhadas sobre as pedras onde se vão esconder uns caranguejozinhos assustados que deixam na areia molhada sinais apenas distinguíveis.
    – José Saramago, História do Cerco de Lisboa

Finíssimo.