Bolacha recheada

Desde a quinta série, todas as manhãs, eu tinha que sair de casa antes de ir pra escola e, muitas vezes antes do dia raiar (maldito horário de verão!), ia pra padaria comprar pão e leite. Seis pãezinhos, e branquinhos porque meu pai não gosta de pão queimado.

Quando se popularizou o leite de caixinha, ia lá só comprar pão. Às vezes ele era do dia anterior, mais vezes ele tinha acabado de sair do forno, em geral era apenas pão mesmo. Leite, pão com manteiga, meu café da manhã de todos os dias.

Ao me mudar pra Sampa pra fazer faculdade, finalmente dono de todas as minhas refeições, resolvi ser ousado e realizar meu sonho de consumo: comer bolacha recheada no café da manhã. Queria algo mais novo-rico que isso?

Meus primeiros meses em terras paulistanas foram dedicados ao prazer de descobrir as bolachas recheadas todas. Na minha pobreza de quem fazia cinquenta reais durar a semana inteira (condução, ida e volta de Campinas inclusas), eu comia elas com leite em pó, e fazia um pacote durar três dias. Quatro bolachas por manhã.

Com o tempo fui me tornando um connaisseur das bolachas recheadas. A Bono tem um sabor clássico que serve de referência a todas as outras. A Tostines, além de quadrada, é meio seca demais. Já a Break-up é a que melhor separa as metades, mas o biscoito em si não é muito bom. A Trakinas é uma das melhores populares, na minha opinião. Porque a melhor de todas, hors-concours mesmo, é a Chocolícia.

O pacote de bolacha é, também, uma solução para vários problemas. Tá com preguiça de fazer janta? Come um pacote de bolacha com leite. Tá sem grana? Compra um pacote de bolacha, custa só dois reais, no máximo. Vai viajar? Leva um pacote de bolacha, cabe na mochila. Não confia no estabelecimento? Vai de bolacha, que o pacote é fechado. É praticamente o alimento perfeito.

Minha intimidade com as bolachas recheadas é tanta que eu devo ter sido o único que realmente reparou e lamentou o fato de que, provavelmente pra aumentar a margem de lucro sem aumentar os preços, as bolachas diminuíram seu peso líquido de 200g pra 160g. Quase todas. Só as Bono se mantêm impávidas.

E assim, passei quatro anos comendo bolacha recheada todos os dias. Até que um dia eu parei pra fazer algumas considerações, e cheguei à conclusão de que, se queria manter uma boa forma até a terceira idade, deveria mudar alguns hábitos alimentares. Entre ele, o consumo das bolachas. O dia em que Lermano virou pra mim e me disse que comer um pacote de bolacha equivalia a enfiar na boca meio tablete de manteiga – "e são tudo calorias vazias", disse ele – foi a gota d’água.

Passei a comer cereais no café da manhã. Mais um sonho infantil que a vida adulta leva ralo abaixo. Agora minhas manhãs começam com Muslix, Granola ou, no máximo, Corn Flakes, que não tem açúcar. Junto com iogurte, pra dar algum sabor à mistura. Encho minha tigela disso tudo e fico lá mastigando feito um ruminante. Nem o fato de estar ingerindo mais fibras me deixou mais feliz.

Mas, no entanto, quando estou precisando ficar mais feliz, me sentir mais de bem com a vida (apesar da possibilidade de aumentar a circunferência), eu encaro um pacote de Chocolícia. Inteiro. E me sinto tão satisfeito depois. Estou mais condicionado que os ratinhos de Pavlov.