Lermano, Litoubrou e Litousis

Conheço muitas histórias de irmãos que apenas calharam de cair na mesma família. Que estão eternamente em conflito, que não confiam uns nos outros, que talvez até fossem mais felizes se não estivessem ligados por esse laço que nunca deixa de existir, por mais que você finja que não existe.

Meu caso é totalmente o oposto.

Eu tenho dois irmãos (um gêmeo) e uma irmã. E tenho o prazer de dizer que, se a gente fosse um pouco mais comercial de margarina, estragaria.

Obviamente que a gente discorda. Temos discussões e vontade de esganar uns aos outros volta e meia. Mas a conexão sempre está lá. Quando não tiver mais pra quem correr, com certeza meus irmãozinhos vão estar lá pra mim. Eles me compreendem e me aceitam exatamente como eu sou (algumas vezes, até melhor que meus pais). Gostam de estar perto de mim, e eu gosto de estar junto deles, tanto que às vezes passamos o domingo inteiro sem sair de casa, só fazendo coisas uns com os outros – vendo filme, jogando computador, brigando um pouco…

Danilo me acompanha desde o útero. A gente sempre esteve junto, estudou junto, compartilhou amigos de alguma maneira, criou os mesmos hábitos. Nossos gostos acabam sendo muito parecidos. Descobrimos os gibis juntos, jogávamos RPG juntos. Às vezes tentamos não gostar de algum cantor ou cantora que o outro descobriu e gostou, mas inevitavelmente um acaba pegando pra ouvir o disco e descobre nele o que o outro tanto gosta, daí já era. No Cotuca, até passamos a estudar na mesma classe, e daí além de tudo andávamos exatamente com os mesmos amigos. Já andamos quilômetros e quilômetros um do lado do outro voltando pra casa.

Muitas vezes eu me preocupo de ele carregar alguns estigmas por minha causa, mas infelizmente não tenho muito o que fazer a respeito. Curiosamente, para dois irmãos gêmeos, nossa intimidade é muito menor do que eu gostaria, mas suponho que tem algumas coisas da minha vida que ele prefere não saber ou ficaria constrangido de perguntar, e respeito isso. Mas sei que Lermano é sempre a fonte de sábios conselhos, e discuto as filosofias da vida e do espírito com ele, que se dedica a isso muito mais do que eu.

Danilo é um dos caras mais CDFs e talentosos que eu conheço. Estuda piano o quanto for necessário até achar que a música está boa (para o desespero do Anselmo), toca violão para animar festinhas, e ainda pinta. Está terminando um quadro fora de série que eu encomendei pra ele, de uma gueixa. Conta histórias excelentes dos plantões que dá noite adentro. Ele é um dos pilares da minha fundação.

Anselminho é tão querido que eu não tenho opção a não dar uns tapas nele de vez em quando. Ele é quatro anos mais novo do que eu, e sempre brigou mais comigo do que com o Danilo (até porque pra brigar com o Danilo tem que fazer um esforço tremendo). A gente saiu no tapa milhões de vezes, se xingava, não suportava um ao outro, puxava cabelo, a mãe tinha que ir resolver as brigas. Até que o Anselmo foi fazer intercâmbio nos EUA, na família em que o Danilo tinha ficado. Quando ele voltou, depois de ter pastado um bocado lá, estava outro.

A gente continua brigando, e volta e meia Mãinha tem que estabelecer o veredito. Mas isso é o de menos. Litoubrou no fundo é também um dos meus grandes amigos. Está sempre a par da minha vida, até de coisas que a princípio não conto pro Danilo. Até porque ele sabe que o que ele perguntar eu conto, e faz uso disso volta e meia. O pirralho, quatro anos mais novo que eu, me dá conselhos sobre a vida amorosa, e me põe os pés no chão quando as paixões e despaixões me deixam nas nuvens. Trocamos figurinhas sobre filmes, e eu me divirto atazanando-o sobre seu corintianismo.

Ele também volta e meia me pede conselhos, que eu tento dar no melhor das minhas capacidades. Jamais vou me esquecer dele, sabendo tudo o que sabe sobre mim, me perguntando como devia proceder em questões espinhosas de sexo com uma mina. Sou o orgulhoso guardião de planos futuros seus confessados, e me orgulho muito de Litoubrou por tudo que ele é. Está fazendo Jornalismo, vai ter que correr atrás de emprego que nem eu fiz, mas tenho certeza de que vai fazer o que gosta, bem, e fazer bonito na vida.

Aninha chegou tarde na família, e por consequência, sendo doze anos mais nova que eu e a única menina entre os marmanjões todos, é a rainha da casa. Essa menina em meros doze anos já enfrentou mais leões que nós três juntos, e já seria uma alegria por simplesmente ser. Apesar de tomar uma injeção todo dia, para ajudar no crescimento, ela mantém um bom humor descomunal, sendo capaz de rir montes de qualquer besteirinha que a gente fala. Sempre me deixa comovido e bobo quando eu chego em Campinas e ela me mostra o quanto sente saudade de mim.

Quando ela era menor a gente sacaneava ela de várias maneiras, dizendo por exemplo "Ata ata ata, a Ana Paula é legal", ou esticando um controle de videogame até atrás do computador para ela pensar que estava jogando um jogo qualquer com a gente e nos deixar em paz. Agora ela não é mais boba e isso não cola mais. A mina sabe de cor as músicas do Chico Buarque todas, que canta com os irmãos sem que suas amigas entendam qual é a graça. Qualquer momento que a gente toca violão, fazemos questão de cantar "Anna Julia", trocando o refrão por "Ana Paula", obviamente. Adora fazer programas com os irmãozãos, principalmente ir no cinema; foi assistir Diários de Motocicleta e puxou o ronco, assistiu Piratas do Caribe e morreu de medo, mas não desiste.

Às vezes eu paro pra olhar nós quatro no quarto, falando abobrinha, jogando computador enquanto o outro lê, e simplesmente curtindo o fato de estarmos juntos, e penso que isso não deve existir em muitos outros lugares. Somos capazes de irmos apenas os quatro assistir a um filme no cinema, e nos divertir à beça. Tenho três porta-retratos meus com eles no meu quarto, e terei tantos mais quantas forem as fotos inspiradas que tirarmos juntos. Mais do que qualquer outra pessoa, os três sempre vão estar lá pra mim pra tomar conta e me puxar a orelha, e eu amo todos do fundo do coração..

One Response to “Lermano, Litoubrou e Litousis”

  1. Leitor

    Me emocionei muito lendo isso. Também tenho uma irmã ótima. Nos odiávamos quando crianças, hoje somos grandes parceiros, confidentes. Bonito o teu reconhecimento que existem diferenças e que vocês se respeitam mesmo assim. Cuide-se e cuide deles também. É uma jóia e tanto essa que tu tens.