Rede de segurança

Amigos vêm e vão.

Retrocedendo nos caminhos poeirentos da memória (os meus um pouquinho menos empoeirados, porque eu vivo lembrando de tudo), acho que só vim a ter amigos mesmo no colegial. Foi quando eu realmente fiz parte de uma "turma" que me aceitava assim quase como eu sou (e tirava sarro também, fazer o que). Eu e o Danilo demos muita sorte de encontrar um grupo de gentes que combina muito com a gente. Já faz dez anos que a turma se juntou; já brigamos, fizemos amigos secretos, contamos segredos e fizemos fofocas. Fomos cada um pra uma cidade, mas mesmo assim damos um jeito de continuar nos vendo, e de manter esse elo tão raro. O que é bom, porque os diálogos entre nós sempre rendem ótimos textos aqui pro Chão.

Comecei também a ter aquele conceito de "melhor amigo". Por um tempo eu tive até dois, o que me fazia me sentir muito importante e capaz. Bem, sendo a vida como é, um traiu minha confiança de tal forma que ela não será recuperada jamais; o outro se distanciou, foi cuidar da vida e claramente não faz mais esforço pra manter contato. Sim, em dez anos as coisas mudam, mas não deixa de ser triste.

Com a mudança pra Sampa, os amigos ganharam um novo significado. Não mais tanto no sentido escolar de amizade, eles passaram a ser a solução contra as noites solitárias e abandonadas de quem vem morar sozinho na metrópole. Na faculdade conheci a caixinha de Especialidades, meus amigos queridos com afinidades de senso de humor, gosto pra baladas e projetos pra vida. O fim da vida universitária está tentando nos afastar, mas a gente resiste do melhor jeito possível.

O tempo vai destilando as amizades, e aquelas que conseguem durar apesar da distância e dos anos se tornam cada vez mais preciosas.

O Guilherme é um dos meus amigos em quem mais confio, que mais respeito os conselhos e mais admiro a sabedoria, mora em Campo Grande e a gente mal consegue se ver mais que duas ou três vezes por ano. Mas, mesmo à distância, um sabe que o outro está lá para tomar conta e emprestar o ouvido em caso de emergência.

A Thais também já faz isso há tantos anos que não se surpreende mais com nada. A confiança que a gente tem um no outro é maior do que de muito namoro. Quando eu vim pra Sampa eu morei no mesmo apê que ela, o Louis e mais três irmãos, oportunidade em que descobrimos que poderíamos morar juntos com o mínimo de estresse. Conversávamos todas as noites, mesmo quando ela chegava mó tarde; fui eu quem a consolou quando o Marcus morreu (mesmo o Marcus sendo apenas um personagem de Babylon 5), e quem, recentemente, fez o possível para consolá-la quando uma morte de verdade surgiu em seu caminho. Quando a vida romântica não dá certo, a gente troca figurinhas, xinga o mundo, dá risada, e depois se convence que ainda vale a pena continuar tentando.

A Pri foi a primeira amiga que eu fiz no colegial; a gente roubou dinheiro do pedágio e foi tomar um pote de sorvete escondido dos veteranos. Desde então ela saiu do Cotuca, eu fui pros EUA, ela foi pra Noruega, eu vim pra Sampa, ela continuou em Campinas, mas a gente sempre continuou a par um do outro. O assunto entre nós nunca acaba. Ela está sempre no topo da minha lista de visitas a fazer em Camps; se a gente já se vê bem menos que devia, imagine meus outros amigos lá, o quanto reclamam.

Rô Spina me conheceu quando eu cantava no coral. Ele que me orientou na mudança pra Sampa, me arranjou meu primeiro emprego dando aula de inglês e me ouviu noites e mais noites durante meus primeiros anos de ECA. Rô me acompanha nas baladas e nos filmes de domingo, e eu adoro ouvi-lo contar sobre seus projetos na faculdade, feliz que ele finalmente encontrou uma atividade em que se realiza.

Ultimamente o Osiel, um paradoxo de romantismo e galinhagem, vem sendo dando a assistência técnica e teórica em N assuntos levemente espinhosos. Meninos não têm Capricho nem Nova, e, mesmo que tivessem, nenhuma revista seria capaz de analisar qualquer e todo assunto, e depois oferecer uma xícara de chá.

E Cynthia… A gente se conheceu no Curso, mas se aproximou mesmo só no começo deste ano. Desde então, a gente faz a manutenção diária um do outro, cuidando das preocupações do dia, falando abobrinha, falando sério, dando broncas um no outro e também não deixando a bola cair. Ajudamos um ao outro na vida da Editora, compartilhando as informações e contatos.

Meus grandes amigos são minha rede de segurança no trapézio do dia-a-dia. Não sei bem o que faria sem eles.