Abri os olhos pela manhã e o pensamento emergiu imediatamente: vou comprar um cravo vermelho para dar de presente.
Faria um mês que a gente se conheceu, afinal. E quem sabe o cravo lhe faria mudar de idéia.
Na viagem de ônibus, os passageiros barulhentos não me deixavam dormir, mas tudo bem, porque uma flor bem colocada no fim da noite compensaria pela raiva mal-contida.
O dinheiro estava contado, mas dava pra comprar o cravo. Na saída do metrô, aviso de uma mensagem de voz. Faltava crédito, faltava cartão, corri até uma banca próxima e comprei 50 créditos para falar no orelhão. Coloquei o cartão no telefone e me dei conta que, em minha estupidez, deixei todo dinheiro que me restava na banca e não sobrou nenhum pra floricultura.
A mensagem não era de quem eu queria que fosse (por bem ou por mal). Andei muitos quarteirões até o banco mais próximo, tirei dinheiro, andei mais até uma floricultura ainda aberta.
Tem cravo? Não. Nenhum? Não. E quanto é essa outra flor aqui? Seis reais o maço, sem ser pra presente. Mas eu só quero uma! Não é pra presente? Não, é pro gesto mesmo. Não dá pra vender só uma não. E que flor é essa outra aqui? É crisântemo. E vende uma só? Vende. Não, mas é meio fúnebre, eu quero cravo vermelho. Tem crisântemo amarelo também. Onde tem outra floricultura aqui perto? Ah, perto não tem, só lá em cima no metrô mesmo. Obrigado.
Não dava pra sair procurando, tomei um ônibus de volta pro metrô. Várias bancas de flores, que ficam abertas 24 horas. Agora sim vou achar meu cravo vermelho.
Tem cravo? Xi, rapaz, já acabou tudo.
Não é possível, o universo está conspirando contra mim.
Tem cravo? Tem não senhor, só amanhã.
Amanhã não pode ser, tem que ter um hoje!
Tem cravo? Hmmmmmm, não, quem sabe lá no box quinze.
Tem cravo? Tem esse branco, esse amarelinho, e esse meio roxo. E cravo vermelho, não tem? Tem não, chefia. Vai ter que servir esse branco mesmo, quanto é? Dois reais. Tá qui, valeu!
Mais um ônibus, de volta pro ponto de onde eu tinha partido, mas tudo bem, porque agora eu tenho um cravo na mão e nada pode dar errado, meu cravo é meu escudo contra a desilusão. Não tem como dar errado, o mundo é feliz, os sentimentos simples, e tudo acontece como devia ser, eu consegui meu cravo.
Mais um orelhão, depois de tentar vários. Nenhum mais funciona como devia, deve ser o excesso de selinhos com o número das acompanhantes.
Tô aqui na rua, vem me encontrar na esquina? Belê, vamos na padaria no quarteirão de cima? Tudo bem, estou te esperando.
Toma, pra você. Ah, obrigado. Hoje faz um mês que a gente se conheceu.
Conversa mole, conversa séria. Não consegui afastar o fim do que mal tinha começado. O cravo sumiu, e de nada adiantou.
Quem sabe se tivesse sido um cravo vermelho.