Colisão

Vencer a preguiça e ir para a aula de natação, ou tomar banho em casa e deixar de nadar? A aula de fotografia que já tinha matado no dia anterior. A conta do banco, que se torna um buraco cada vez maior. A faxineira que não chegava logo. As banhas que vão começar a acumular se eu não deixar de matar a natação como hoje. O corte de cabelo que ficou curto demais e me deixou com a cabeça enorme.

Desci para o térreo, a caminho do trabalho, saí do prédio, virei para a esquerda. Primeiro eu vi o aglomerado de gente; depois, o ônibus que tinha batido num poste, a poucos metros de onde eu estava.

Os bombeiros já estavam lá prestando socorro; o ônibus estava vazio, e as pessoas cercavam a fita de isolamento, como sempre. Um pouco para tentar descobrir como passar por aquilo, e também por curiosidade mórbida, tenho que admitir, me aproximei do povo todo para ver o acidente. Me arrependi na hora. Debaixo do ônibus, com metade do corpo pra fora, deitada numa poça de sangue, tinha uma moça, inerte, já meio pálida. “Ela estava esperando o sinal abrir para atravessar a rua, quando a roda do ônibus soltou”, disse alguém em volta. O bombeiro devia estar tentando fazer alguma coisa para salvá-la, apertava sua barriga com a ponta dos dedos, a textura da pele já não era muito boa.

Me afastei da cena o mais rápido que pude. Não tinha como passar em torno daquilo tudo, não tinha como atravessar na faixa de pedestres, fui desviando dos carros que passavam até chegar na outra calçada, torcendo pra não me tornar a próxima vítima. As minhas preocupações anteriores todas se tornaram pequenas demais, num instante. Fiquei pensando que se tivesse descido um pouco antes, podia ter sido eu. Como minha mãe disse, “tudo que pode ser resolvido só com dinheiro não é problema”. O trânsito daquele lado da rua estava todo parado, os motoristas buzinavam mil vezes, e eu querendo gritar pra eles “Vão se foder! Vai demorar mas vocês vão chegar em casa, lá na frente tem alguém que não vai mais pra lugar nenhum!”.

Se eu tivesse resolvido ser médico, como meu irmão, eu teria que ir lá perto pra tentar prestar socorro. Como que ele consegue? Naquela aula dele que eu fui, em que abriram um cão pra ver ele respirando, já fiquei péssimo. Se aproximar daquilo, e ainda por cima de repente mexer na moça. É uma capacidade que eu não tenho.

E você ainda quer andar de moto? Os motoboys todos ousavam cortar pela faixa da contra-mão, pra burlar o trânsito. Que que cê tem na cabeça? Pode usar um capacete, vai ter juízo, mas vai que alguma coisa acontece? E se você fica que nem o tio Benê? Já pensou se acontece alguma desgraça e eu sou o próximo a morrer e…

– Você vai ser mesmo o próximo a morrer!, esbravejou alguém do meu lado. Olhei para trás, assustado, entrando na estação do metrô, imaginando se alguém estava lendo os meus pensamentos. Um cara de meia idade levantava a bengala, ameaçadoramente, em minha direção.

– Se você atravessar na minha frente de novo, você vai ser o próximo a morrer! – continuava ele, enquanto eu tentava ignorar. – Eu te mato! Corta a minha frente pra você ver! Satanás! Morra!

Eu desci a escada rolante, fingindo que não era comigo.

13/04/2004 – 13h08
Ônibus invade calçada e atropela ao menos sete pessoas em SP
da Folha Online

Um ônibus desgovernado invadiu a calçada e atropelou ao menos sete pessoas que estavam na rua Heitor Penteado, perto da rua Oscar Caravelas, região de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Os bombeiros afirmam que quatro dos feridos foram encaminhados à Santa Casa e os outros três para o pronto-socorro da Lapa. Uma pessoa morreu, mas ainda não há confirmação se seria uma oitava vítima ou se é uma das pessoas socorridas.

De acordo com a SPTrans (empresa que gerencia o transporte coletivo na cidade), o ônibus envolvido no acidente fazia a linha 7725/10 Rio Pequeno-metrô Vila Madalena, da empresa Oaktree. A faixa esquerda da Heitor Penteado foi interditada no sentido bairro, prejudicando o trânsito.

O acidente aconteceu por volta das 11h15. As causas ainda são desconhecidas.