Já me acostumando com os horários de trabalho um tanto alternativos da Recesso, acordei nove e pouco, tomei café, me vesti para trabalhar, calcei o All Star e rumei para o metrô.
Eu: "Que estranho, parece que tem algo dentro do pé direito do tênis. Antes ele apertava um pouco o dedinho, mas isso já passou…"
Allzul: Já vai começar a reclamar?
Eu: Dá licença que os pensamentos são meus?
Allzul: Desculpe, mas você fica aí refletindo alto demais, já tô ficando de saco cheio.
Eu: Os incomodados que se mudem.
Allzul: Você me amarrou nesse seus pés cheios de dedos, eu não tenho muita opção.
Eu: Rá rá, se ferrou.
Allzul: Espero que a van não demore muito hoje, assim você chega logo no trabalho e pára de ficar pensando na vida. Trouxe os discos?
Eu: Trouxe. Au, mas tem algo apertando meu dedão mesmo. Desde quando você ficou ranzinza assim?
Allzul: Eu não sou ranzinza, eu estou ranzinza. Eu sou um tênis musical, meu negócio é sair pra dançar, procurar um All Star preto de cano alto que combine comigo, não ficar pisando as mesmas lamúrias de sempre na ida e na volta do trabalho.
Eu: Será possível que eu não tenho sequer intimidade pra pensar o que eu quero no caminho do metrô?
Allzul: Oh, please. Daqui a pouco já vai começar… "Ninguém me ama, ninguém me quer, buuuuuu, o que eu faço…" Dá vontade de me enforcar com meus cadarços.
Eu: Uau, a capa da Contigo! ficou bacana. Au, meu dedão. Ah, sei lá, é tão difícil achar alguém que valha a pena, é toda uma confluência de atração física, afinidade intelectual, admiração por seus talentos e um carinho que vem meio de lugar nenhum… Achar mais alguém assim vai ser tão difícil…
Allzul: "Ah, e se eu tivesse mais cabelo, ah, e se eu tivesse dez centímetros a mais, ah, se eu não fosse uma toupeira que coloca o tênis pra secar no forno…". Corta isso aí. Tesoura no pensamento. Ficar se lamuriando não adianta nada. Cê sabe muito bem que quando menos se espera, isso tudo surge do nada, é só ter paciência, quando você menos esperar pode ser surpreendido.
Eu: Será…? Não sei. Au, cê tá me incomodando muito mesmo. Putz, que mico, tirar o tênis na fila da ponte orca. Mas não vou andar até o serviço com o dedão doendo assim. Dá licença. Que que é essa coisa preta aqui dentro?
Enfiei a mão lá dentro do tênis, e tirei, assustado, um besourão preto, cascudo e enorme, que, com o susto, joguei no chão. O besouro estalou no chão, esticou as patas e saiu andando pra longe de mim. Assustador, principalmente porque não sei como ele foi parar lá.
Allzul: Não te disse?