"Aqui pode-se fazer de tudo, só não pode fazer sexo no banheiro; os únicos dois que tentaram não conseguiram frila nenhum, que a gente saiba, em revista nenhuma!"
Essa declaração bombástica foi lançada hoje pelo Manuka, que conseguiu assim superar todas as anteriores em questão de sensacionalismo e surpresa.
Já faz um ano que eu participei do Curso que a Editora dá para jovens talentos todos os anos. Foi um sonho realizado, um objetivo cumprido, um mês intensíssimo em que todos os dias eram planejados das nove da manhã às onze da noite, pelo menos. Ocasião em que conheci gente genial do país todo, pessoal talentosíssimo e criativo. Como o próprio Manuka disse, expressando seu pasmado há pouco menos de um ano, "É impressionante, todo mundo trabalha muito bem aqui, você pode largar o serviço na mão de qualquer um e ir pra casa sossegado que vai sair algo ótimo dali".
Graças ao Curso eu consegui confiança para procurar frilas na Editora; foi o começo do caminho que me levaria eventualmente a trabalhar na Recesso, feliz, até hoje.
Como já é tradição, os veteranos do ano imediatamente anterior que ainda estão na Editora vêm falar com os calouros no primeiro dia de Curso. Já vinha pensando nisso quase desde o dia que o meu Curso acabou, mas principalmente desde que a Marília chamou todos os remanescentes para uma conversa sobre o Curso que viria.
Assim, acordei mais cedo que de costume hoje, para não correr risco de chegar no serviço atrasado e perder minha deixa. Comecei a adiantar vários serviços pendentes, na prática matando tempo até chegar a hora de ir ao auditório com meus colegas. A Cynthia veio me pegar no meu andar para descermos juntos; pouco depois de chegarmos, o resto do povo chegou, e subimos o palquinho em frente à platéia curiosa.
Tonhão foi o primeiro a falar. Depois de uma explicação de quem era, o que fazia agora e o que fez no Curso, convidou todos os presentes à festa que está organizando de boas-vindas, num lugar chamado The Garage Rock Bar. Ou seja, na garagem da casa dele, com um codinome chique e genérico para que ninguém se intimide de ir numa festa na casa do Tonhão – não que os calouros soubessem disso.
Eu falei em seguida, e dei os conselhos que gostaria que tivessem me dado há um ano: preparem um portfólio decente e lindo, e não disperdicem seus vale-refeição comendo sopa. A refeição completa custa quase oito reais, enquanto a sopa custa dois; no entanto, se quiser tomar uma sopa na janta, tem que se gastar o vale do mesmo jeito. Considerando-se que ele continua valendo depois do fim do Curso, ele pode ser a salvação do frila apertado de grana que precisa almoçar na Editora até receber seu primeiro pagamento.
Todos os outros deram as dicas que vinham do fundo do peito, num clima cada vez mais descontraído. Experiências da vida de frila, do decorrer do curso… Tudo com muito humor, de forma que, mais que divertir a platéia, quem realmente se divertia éramos nós. E foi me dando uma saudade daquele povo com que convivi tanto por um mês, e que, mesmo nunca tendo desaparecido completamente, não participou mais tanto da minha vida desde então. Saudade boa, e que ainda tem solução.
E então Manuka fez essa revelação bombástica, e totalmente desconhecida por mim. Pelo que averiguei depois, um casal de alunos do curso começou a se animar na festa de encerramento, e, à uma da manhã, subiu de elevador até um andar que consideravam deserto e entrou no banheiro com as piores das intenções. Mas não foram muito longe; num prédio totalmente coberto de câmeras e seguranças, logo foram interrompidos por dois vigias noturnos, que fizeram manter o decoro e a moral no recinto.
De uma coisa eu tenho certeza: o colóquio que minha turma deu esse ano para os recém-chegados foi muuuuuito mais interessante do que a que nós acompanhamos, ano passado, de nossos veteranos.