Até eu ir pros EUA eu nunca tinha participado de um treinamento de incêndio. As escolas aqui não se preocupam com esse tipo de coisa. Lá na Mazama High School, no entanto, uma vez por trimestre a sirene de teste tocava, e todos calmamente saíam do prédio pela saída mais próxima, faziam uma horinha na calçada, e daí voltavam pras aulas. Teve uma vez que até teve treinamento contra terremoto, situação na qual o procedimento era se agachar debaixo da mesa, para se proteger de tetos cadentes, e esperar.
Essa semana lá na Editora o jornal de parede avisou a todos que haveria nos próximos dias o treinamento contra incêndio. Hoje, por volta das três, quatro horas, começou a tocar em todos os andares a sirene de incêndio. O horário não foi escolhido à toa; diz a lenda que já fizeram treinamento anti-incêndio na hora do almoço, e a maioria das pessoas que estavam no refeitório naquele momento se recusaram a largar suas refeições recém-adquiridas e quentinhas em cima da mesa pra ficar passando fome na calçada. Assim, já almoçados há tempo, largamos todos o que estávamos fazendo, nos levantamos de nossos computadores e nos dirigimos para a escada de incêndio.
É claro que o fato se saber que é tudo brincadeirinha muda as coisas completamente. Eu, por exemplo, prevendo um longo período de espera, peguei uma revista pra ler lá embaixo. Todos caminhavam placidamente escada abaixo; tão placidamente, pra falar a verdade, que aconteceu um engarrafamento na escada de incêndio. Em situações mais reais, suspeito eu, os retardatários todos virariam purê sob a sola dos sapatos daqueles que não querem virar churrasquinho.
Uma vez no lado de fora, localizei o povo da Recreio e ficamos lá batendo papo, esperando a permissão para voltar ao trabalho. Vários funcionários, não tão prevenidos como eu, compravam coisas para ler na banca na frente da Editora; o jornaleiro estava feliz da vida.
A hora da volta apresentou vários inconvenientes, não só pela preguiça que inevitavelmente surge. Todos os seres do prédio tinham descido, e agora tinham que subir. Ou seja, megafila pra tomar o elevador. Esperar no térreo tomando um café seria até uma opção, se dezenas de outrem não tivessem tido a mesma idéia. Ou seja, megafila na cantina. Não havia muita opção. Resignado, peguei a fila pra tomar o elevador, que foi pingando de andar em andar até chegar no meu. Redação praticamente vazia, pessoas no ICQ magoadíssimas porque eu não respondia, e fechamento atrasado. Paciência; pelo menos o incêndio era de mentira.