Acho que eu usei aparelho nos dentes de uma forma ou de outra desde os oito anos. Já usei todos: capacete, móvel só em cima, móvel em cima e embaixo, cabresto, fixo… Ter uma mãe ortodontista facilitou bastante as coisas nesse sentido. Tudo bem que na maioria do tempo eu usava-os que nem o nariz, o que também deve ser meio responsável por tantos aparelhos; mas acho que meu caso era complicado mesmo.
Quando eu voltei do intercâmbio nos EUA, começou meu último tratamento. Fixo em cima e embaixo, com extração de quatro molares. Pra variar, eu não era dos mais assíduos nas consultas com mãinha; e assim, os anos foram passando, eu larguei a engenharia, passei na editoração e ainda usava aparelho.
Isso começou a me dar raiva, e chegou um ponto que eu comecei a ir direito, sem falta, nas consultas, pra me livrar logo daquilo. Comecei a encher o saco da mãe-doutora também; quando meu irmão tirou o aparelho antes de mim, eu quis me jogar da ponte. Tanto falei, tanto falei, que assim que deu ela tirou o aparelho, e me deu um aparelho de contenção pra usar até os dentes se ajustarem à nova liberdade.
Situação clássica, eu o usei que nem o nariz, e acabou abrindo um vãozinho entre os dois incisivos superiores do meio. Que passou a me incomodar muito; depois de um tempo, fui perguntar a mãinha o que podia ser feito a respeito. A primeira resposta dela foi que eu colocasse aparelho de novo "só por um tempinho, uns quatro ou cinco meses", o que eu vetei na hora. Ficou combinado de que ela fecharia o espaço com massa ortodôntica lá. Mas antes eu teria que arrancar os dentes do siso, por razões que não me lembro, e depois fazer clareamento, pra não dar diferença de cor caso eu o fizesse posteriormente. Como eu não estava muito a fim de arrancar os sisos, demorou muito tempo até que o processo todo se completasse.
Mas, quatro dentes do siso e um clareamento depois, chegou o dia em que eu me livraria do famigerado vãozinho. Aproveitei uma segunda-feira de folga e fui feliz e contente pro consultório, sentei na cadeira de dentista e fiquei esperando.
Mãinha, que não se conformava com a idéia de alargar os dentes da frente, olhou de um lado, olhou de outro, pensou, e chegou à conclusão de que o melhor procedimento seria aumentar a altura de todos os meus molares, o que resolveria meu problema de mordida baixa e abriria espaço de manobra para que os incisivos fossem puxados pra perto um do outro com uma borrachinha colocada atrás dos dentes. Como mãe não mente, eu aceitei a idéia. Tinha ido lá para algo rápido de no máximo meia hora, acabei ficando três ou quatro horas com a boca aberta e os dentes isolados por uma tela de borracha azul. Um tubinho de massa de dente, que suponho deve durar meses de pequenas cáries, foi-se inteiro na ampliação dos meus dentinhos.
Mas valeu a pena. De dentes novos e borrachinha puxadora, fui dormir naquela noite e acordei com os dentes juntinhos. Fui pra Sampa todo feliz, de sorriso novo, que poucos repararam. Mas eu não conseguia de ficar olhando para ele no espelho.
Demorou um pouco pra minha mandíbula se acostumar com as novas coordenadas, no entanto. Mastigar começou a necessitar de raciocínio por alguns dias; e várias noites eu cheguei do trabalho no apê e me peguei pensando em tirar aquele aparelho pra comer alguma coisa, logo em seguida me dando conta de que não tinha como tirar o que me dava aquela sensação. Além disso, minha língua ficou terrivelmente presa, e eu tive que amestrá-la por algum tempo até conseguir falar como antes.
E assim, espero eu, acabou minha longa jornada em busca do sorriso perfeito. Se não tiver, com certeza o escreverei aqui. Muito revoltado.