Quando eu vim pra Sampa, eu fiquei morando num apêzinho na Vila Madalena, rachando quarto com o Louis e o apê com mais a Thais e três irmãos que eram os donos do imóvel. Tinha coisas boas e ruins nisso, mas minha estadia lá não durou muito mais depois que Mãinha visitou o lugar e ficou horrorizada com a situação precária em que vivíamos. Em duas semanas ela e Pai arranjaram um apê em Pinheiros, ajeitadinho, que em teoria eu racharia com mais alguém, mas depois que Pai arranjou um emprego em Sampa, passei a rachar com ele.
O apê tinha dois quartos grandes, sala e banheiros pequenos, e cozinha ridícra. O que fazia que tivéssemos que colocar mesa, geladeira e microondas na sala, porque na cozinha não cabia mais que o fogão. O apê nunca me inspirou muita confiança, mas depois de dois anos morando lá comecei a pegar bode dele. Se queria fazer qualquer comemoração lá, tinha que instalar os convidados no meu quarto, porque não cabia muita gente na sala – a qual meio que dava vergonha também, com sua televisão em cima do frigobar e pacotes de bolacha e vidros de nescafé enroscados no fio da antena. Depois que eu arranjei uma faxineira as coisas melhoraram um pouco, mas depois de um tempo ela começou a destruir o box e a instalação telefônica, o que só me fazia depreciar mais ainda o lugar onde morava.
Bem, depois de anos tentando sair de lá, a gente finalmente se mudou de Pinheiros pra Vila Madalena de novo. Na verdade o bairro se chama Sumarezinho, mas, como eu moro a dois quarteirões do metrô Vila Madalena e o nome do bairro é muito cafona, Vila Madá fica sendo. Mãinha e Danilo encontraram o apê caindo aos pedaços, com portas cor-de-rosa e cozinha e banheiros nojentos, um carpete que dava vontade de chorar, mas com um pouco de pensamento positivo encontraram as qualidades que se escondiam debaixo da gordura e dos ácaros. Depois de um processo que levou uns dois meses, compramos o apê (financiado a perder de vista) e começamos a reforma, que foi surpreendentemente rápida.
Quando ele ficou pronto, glória das glórias, eu moraria num lugar em que a promiscuidade entre aposentos não mais exitiria. A sala é sala e cozinha é cozinha. No banheiro há espaço pra guardar todos os apetrechos de higiene pessoal, e na área de serviço será possível até instalar uma máquina de lavar roupa!! Impressive!!
Pois bem, num sábado, lá vamos eu e Pai fazer a mudança. Eu já tinha encaixotado meus livros e gibis todos em cinco caixonas que eu pedi no supermercado. Os CDs eu decidi que iriam na estante mesmo, o que seria mais prático e seguro. Na manhã seguinte, começou a difícil missão de carregar tudo de uma morada para a próxima. Os objetos mais pesados nem são tanto problema – afinal, são em geral caixas cheias de coisa dentro, o que com um esforço razoável se leva de uma vez até o carro, e do carro para o outro apê. O problema são as coisas desmontáveis – cama, armário etc. São levinhas, mas demoram váááárias idas e voltas até conseguir-se levar todas as partes, encaixá-las na Matilde, o Carro Monstro, subir a serra, descarregá-las no outro prédio, subir de elevador, colocá-las num quarto, montar um, montar outro, descobrir que se usou a peça de um no outro, desmontar os dois, corrigir os erros, e daí colocar o móvel no lugar.
Sem falar que o apê novo, por mais lindo que seja, fica numa bagunça que dá vontade de fechar a porta e só voltar quando estiver tudo arrumado – o que não acontece sem que você mesmo arrume, infelizmente.
Pois foi com esse intuito de passar a ter tudo arrumado como não era antes no apê precário que eu resolvi investir um pouco no novo. Minha primeira resolução foi não colocar mais nada debaixo da minha cama – agora o que eu não sei onde colocar e não quero que ninguém veja, coloco debaixo da cama do meu pai. Comprei também uma big estante (duas, na verdade, mas uma é acessória da outra) onde meus livros, gibis, álbuns de fotos e computador cabem todos confortavelmente.
Depois de tomar dois banhos sem box que inundaram o banheiro, decidi comprar uma cortina para o banheiro também. Da Imaginarium, que é mais chique e descoladinho, e que acabou combinando com o banheiro. Infelizmente, com tanto gasto, tive que cortar a faxineira, mas, agora que o apê é um frigorífico todo feito em piso frio, eu posso fazer a faxina eu mesmo, com um pouco de boa vontade, e nunca mais ter a surpresa de chegar em casa e encontrar algo quebrado.
Infelizmente alguns hábitos não morrem. Eu ainda estou readestrando painho para que ele não deixe as comidas em cima da mesinha, que agora fica na cozinha. Temos montes de armários só pra isso. Mas, depois de quatro anos tomando café da manhã assistindo Bom-Dia, Brasil e a Ana Maria Braga, fica difícil olhar pro azulejo enquanto come. Já improvisamos uma mesa na sala, pra deixar as comidas enquanto comemos no sofá.