Durante o dia 11 de setembro o Danilo estava nos EUA. Não estava em Nova York, felizmente, mas sim em Wisconsin. De qualquer maneira, enquanto nós acompanhávamos os acontecimentos de outro hemisfério pela televisão, preocupados com o início da III Guerra Mundial, as repercussões disso na ordem mundial, com o fato de que seríamos todos convocados para os esforços militares e acabaríamos morrendo solitários numa trincheira do outro lado do mundo, ele estava lá em Wisconsin, fresquinho que nem chicória, nem ligando pro que acontecia a algumas centenas de quilômetros de onde estava.
Bem, anos depois, o Anselmo descolou um emprego na HAL, e tinha que ir para os Estados Unidos fazer um treinamento das funções que desempenharia aqui no Brasil. Muito chique, pagaram a passagem, pagaram o treinamento, deram salário, buscaram ele de van em casa pra levar ao aeroporto, serviço completo. Eu, que não sou bobo, deixei ele ir com várias encomendas, afinal, por mais globalizados que sejamos, ainda há coisas que só se encontram nos States.
Pois bem, semanas depois, estou eu trabalhando na Recesso quando dá na UOL que aconteceu um megablecaute em Nova York. Algumas horas depois, já com a TV ligada, a gente acompanha algumas imagens de toda aquela gente gorda e feia andando a pé por falta de semáforos e metrô, levemente temerosos de um ataque terrorista. Só depois de olhar a cena por alguns bons minutos que a ficha caiu e eu me liguei – "Ó Céus, o Anselmo tá lá em NY, e, pior, num emprego que em teoria tem que previnir que os servidores saiam do ar numa situação como essa. Eles devem estar perdendo MILHÕES!!!".
Liguei pra casa pra saber se por algum milagre da telepatia o Anselmo tinha mandado notícias, mas Mãinha me deu a resposta obóvia, que ele não tinha ligado porque não tinha como, já que não havia energia elétrica no lugar. Fiquei o resto do dia aguardando alguma notícia.
Por um instante eu imaginei alguém encontrando o Anselmo agachado num quarto de hotel, congelado, com um isqueiro vazio preso entre os dedos enregelados, numa versão mais moderninha do conto da menina dos fósforos, mas logo me liguei que lá era verão e que a gente devia estar passando muito mais frio do que ele. Imaginei um monte de nova-iorquinos xenófobos, que, sem energia elétrica pra assistir a seus programas de luta-livre, colocariam toda a culpa dos eventos naquele pobre brasileiro e o perseguiriam Manhattan adentro, mas, apesar de muito mais provável, me confortou o pensamento de que eles todos, como já disse, são gordos, e o Anselmo, apesar de não conseguir encostar as mãos nos pés, ainda é magrinho e deixaria eles comendo poeira.
Depois de dois dias aqui inventando cenários apocalípticos, me chega a notícia de que Litoubrou estava bem, e que estava placidamente pescando fora da cidade com o pessoal do trabalho no dia que começou o blecaute. Mais uma vez a gente aqui do lado debaixo do Equador ficou se preocupando à toa enquanto o outro estava lá fresquinho que nem chicória. Mas melhor que seja assim mesmo. E mais um membro da família presencia os eventos da história mundial.