Bodas de prata

Como nem tudo obedece o cronograma que deveria, calhou de que o Anselmo foi para os States exatamente no dia em que meus pais tinham marcado sua festa de bodas de prata. Anselmo teve que gravar uma fita-consolação com o outro única membro da família que ficou fora da festança, a Luana (nossa poodle, que dá ordens para o Danilo), até porque já tinham comprado terno novo pra ocasião, e ele precisava ser usado de qualquer maneira.

Mãinha resolveu que queria fazer uma megafesta de bodas de prata no começo do ano. Foi planejando durante meses, começou a tomar providências por volta de abril, mas, como sempre, as coisas foram acumulando para perto da festa. Ternos novos foram comprados para os quatro homens da casa, vestidos para ela e para a Ana Paula foram experimentados às dúzias, convites feitos a mão foram enviados para dezenas de convidados.

Conforme a lista dos que estariam presentes crescia, também crescia a ansiedade de Mãinha. Quando parentes distantes começaram a considerar fretar um ônibus para poderem trazer todos os adendos, a Méris começou a considerar a possibilidade de pedir licença médica por qualquer razão que conseguisse descolar, e providenciou-se um hotelzinho com desconto para abrigar todos os convivas. Um dia antes deles todos começarem a invadir Campinas, estava Danilo, recém-retornado de um plantão médico, trocando as plantas do jardim, que a dona da casa resolveu que não podiam ficar como estavam.

Eu, felizmente, só fui chegar quando as providências já estavam todas tomadas, e a casa começava a encher-se de parentes. Passei a tarde abrindo o portão para Almeidas, Caparicas e Carlos, muitos dos quais eu não via há algumas décadas, se não me eram totalmente desconhecidos. Nomes mesmo, só sabia dos mais próximos.

A festa em si, à noite, foi muito bem, muito bacana. Muito chique, com os Carlos num canto, os Almeidas em outro, e os Caparicas preenchendo todo o resto. E como tinha Caparica lá. É uma situação meio complicada, porque eu tenho consciência do meu papel social como filho dos anfitriões, mas por outro lado mal conhecia aquele povo todo. Mas tentei fazer o melhor possível.

Um tempo depois que os convidados chegaram todos, começaram as homenagens. Mãinha tinha selecionado dezenas de fotos dos últimos 25 anos, as quais começaram a passar num telão ao som de "Emoções". Eu e meu irmão, que somos dois bananas, começamos a chorar sem parar, até o fim da música. Depois foi feita uma homenagem à Méris, mericidíssima, já que ela trabalha com a gente há quinze anos. Depois de uma explanação professoral do meu pai sobre a natureza do tempo-espaço, os convivas foram todos liberados para comerem.

A festa continuou sem grandes percalços. Quando já estava acabando, e eu estava enrolando na porta até o resto das pessoas que iam pegar carona comigo chegarem, encontrei a dona do bufê na saída. Ela chega e diz "Ah, você é o filho da doutora?". Sou, sim. "E ela gostou da festa?". Me parece que sim, não vi ela reclamando de nada. "Ai, que bom, porque ela tinha pedido toalhas vinho, mas o pessoal colocou azuis marinho, eu estava tão preocupada!!". Hmmm, bem, se você dizer isso pra todo mundo que sai da festa, daí sim que ela vai ficar muito descontente. Não, essa última frase eu não falei, ficou só nos meus pensamentos.