Vange

Quando eu fiquei sabendo eu não acreditei.

Eu tinha acordado ontem de manhã decidido a não ir pra academia. Me demorei no café da manhã, assistindo Ana Maria Braga, li os e-mails sem pressa. Pouco depois das oito meu celular toca, mostrando que quem ligava era Paulo Rowlands, com quem eu não falava há muito tempo.

Atendi todo animado; ele estava com uma voz péssima. Depois dos cumprimentos normais de todo telefonema, ele me dá a notícia: a Vange, uma amiga minha de quando eu cantava no coral Gilberto Mendes, havia sofrido um acidente de moto numa estrada próxima a Campinas. A moto se desequilibrou, ela caiu, e três carros passaram por cima dela. Ela tinha morrido. Com a minha idade.

Na hora eu não acreditei. Era uma história tão absurda, que eu fiquei esperando a qualquer momento o Paulo me dizer "Rá, brincadeira, peraí que a Vange quer falar com você". O telefonema acabou e a piada não veio.

Liguei para o Rô Spina, que me confirmou a história. Eu não sabia o que fazer. Fazia mais de um ano que eu não via a Vange. Eu nunca tinha ido num enterro na minha vida. Eu não sabia se eu devia – se eu queria – ir para o enterro. Era tristeza demais para encarar assim de repente.

Mas daí comecei a me dar conta de que ela tinha morrido mesmo. E que, se a gente não se via há um ano e tanto, nós convivemos e nos divertimos muito por quase três anos. E todo meu carinho pela Vange estava guardado ainda, esperando encontrá-la de novo. Algo que não aconteceria mais. Decidi ir.

Essa é uma situação muito irreal. O dia é como sempre, não há nada de diferente no caminho, você quase se esquece da razão pela qual está tomando um ônibus na rodoviária e partindo para Valinhos.

Não fosse, claro, as lembranças que você vai puxando nesse meio-tempo. De como a Vange ficou mais bonita quando começou a usar o cabelo, cheio de cachos, solto. A voz linda que ela tinha, que cantava tão leve e tão bonito no coral. De tantas vezes que a gente riu e conversou sério, em bares, na casa de amigos, em festas. Toda a presença da Vange que a gente só separa um tempo para se dar conta quando se vê nessa situação.

O Rô Spina me pegou na rodoviária e me levou para o velório pouco depois da uma da tarde. Meu primeiro velório: não sabia bem o que fazer, como agir. Encontrei a Karina, minha ex-professora de piano e grande amiga (com quem também não falava há um ano e tanto) chorando perto do caixão. Eu a abracei, e ela chorava de soluçar.

Pouco depois eu parei para olhar o caixão, lacrado, pois parece que o que sobrou da Vange não ficou nada bem. E me pareceu errado, muito errado, que tudo que a Vange era coubesse ali, numa caixa tão pequena. O pensamento de que o corpo dela estava lá dentro era assustador. Como assim, você no fim se resta a isso?

Eu sou espírita. Eu sei que a Vange mesmo não era só aquilo, não estava preso ao que restava dentro da caixa. Mas aquela Vange que eu abraçava e conversava e ajudava a desembaçar os óculos estava lá. Só.

Em cima da tampa do caixão, um retrato que eu tinha tirado dela quando a gente foi fazer oficina de canto coral em Itajubá, a carteirinha de estudante dela, e um desenho que seu sobrinho tinha feito do acidente da tia. Eu não consegui encostar no caixão. Já tinha chorado um pouco em casa, chorei mais um pouco na hora, e rezei pela minha amiga.

E o mais irônico é encontrar tanta gente que você gosta, amigos que não via há muito tempo, reunidos por algo tão triste. E se dar conta do quanto gosta deles, e do quanto os vê pouco por achar que sempre vai ter uma oportunidade para vê-los de novo.

Paulo Rowlands, melhor amigo da Vange, falou muito durante o velório. Da Vange para quem estava lá, para ela. Cantamos uma música de coral em sua homenagem – eu nunca a tinha ouvido, mas fiz o melhor para acompanhar quem sabia na hora.

E, às cinco da tarde, levaram o caixão até o cemitério e o colocaram no túmulo. Rowlands puxou a "Canção da América", que todos cantaram sem requintes coralísticos, com o coração e com a amizade que estavam deixando lá debaixo daquele murinho de cimento.

Mas a voz e o sorriso da Vange, estes seguem com a gente.