Ceia de Ano Novo

O primeiro sinal de que a gente está ficando grandinho é quando se consegue passar o Ano Novo longe da família. Os pais ficam desolados, a festa deles diminui de tamanho, mas a gente não tá nem aí; o importante é tentar se divertir mais com os amigos. Nem sempre se consegue, mas o que vale é a intenção.

Na última semana de dezembro acontece todo um movimento de migração da população para a praia. Florianópolis tem sua população triplicada, em grande parte por causa de paulistas que acham a cidade linda (e é mesmo) e fazem questão de ir lá encontrar outros paulistas.

O lado bom disso é que a cidade fica um paraíso por alguns dias. Nada de trânsito ou engarrafamento. Aqueles que resolvem ficar por aqui mesmo conhecem uma cidade quase ideal, o que só piora as coisas (por comparação) quando o povo todo retorna.

Depois de ter passado os primeiros minutos de 2002 ouvindo a Banda Brasília cantar "Váááá pra Mééériiidaaaaaa", eu decidi que ia passar esse Reveillon com os amigos de qualquer jeito. Como não descolamos lugar na praia para fazermos um reveillon típico, o pessoal do Tio Mega decidiu comemorar na casa da Júlia mesmo. E como já tínhamos todos nível universitário, decidimos que faríamos uma ceia decente. Nada de passar o Ano Novo comendo salsicha.

A DROM deu uma forcinha nesse sentido, dando para seus prestadores de serviço (categoria na qual me incluía) um peru e um pernil. Obviamente eu tive que deixá-los na casa da Carolzinha, já que eles jamais entrariam no congelador inexistente da minha microgeladeira. Decidimos incluir tender, champanhe, arroz, creme de milho e chocotone na ceia, para começarmos o ano com a ilusão de sermos mais ricos do que realmente somos.

O principal trunfo da nossa ceia, no entanto, chamou-se Claudia Cozinha. Numa iluminação do tipo que só acomete a Carolzinha, ela comprou a edição de dezembro, que vinha com várias receitas muito boas para a ceia de fim de ano. Ela encontrou uma receita de peru que já levava em conta os temperos industriais do bicho, e se pôs a prepará-lo dois dias antes da festa, como mandava a revista.

Como eu estava de folga do trabalho naquela semana e estava todo sozinho aqui em Sampa, fui pra casa da Júlia um dia antes fazer companhia à minha amiga que também estava solitária. Ficamos assistindo Sony a noite inteira, relembrando os episódios de Barrados no Baile e outros programas trash da nossa adolescência. Cheguei à conclusão de que minha vida seria muito mais televisiva se tivesse TV a cabo no meu apartamento.

Acordamos relativamente cedo no dia 31, e nos pusemos a preparar o tender seguindo a receita que a mãe da Júlia tinha deixado. Uma coisa que, apesar de simples, é complexa, já que você tem que tirar a gordura do tender, temperá-lo certinho e várias outras cositas mas. Volta e meia os pais dela, que estavam no Nordeste, ligavam só pra dizer como estava bom lá. Não uma, não duas, não três, mas pelo menos umas cinco vezes. Finíssimos.

O Marcel chegou do trabalho umas cinco horas, e foi buscar o peru temperado na casa da Carolzinha e do Léo, que o estavam esperando para saírem de casa para assistir à São Silvestre. Infelizmente não puderam sair tão rápido assim, porque a fôrma do peru era muito rasa, e assim que o Marcel fez uma curva o tempero escorreu todo para o chão do carro. Ele teve que voltar e trocar o peru de recipiente; seu carro ficou cherando a especiarias exóticas por vários dias, e não houve lavagem que vencesse os aromas orientais do peru da ceia.

O forno da Júlia ficou fácil umas doze horas ligado, entre tender, peru, pernil e outras coisas. Mas valeu a pena; graças à nossa amiga Claudia Cozinha, conseguimos uma ceia chique à beça, com o melhor peru que eu já comi, e tudo pronto de maneira relativamente simples, de maneira que a Carolzinha ainda conseguiu chegar na ceia de escova feita no cabelo. A única coisa que falhou foi o bolo de chocolate, mas isso porque, na falta de chocolate meio amargo, ela derreteu chocolate ao leite mesmo, o que transformou o bolo numa rapadura de chocolate.

Feliz Ano Novo! E viva a Claudia!