A pasmaceira do funcionalismo público é um monstro que só não se levanta para te engolir porque para isso ele ia ter que te atender no balcão. Quando eu fazia parte dele eu ficava deprimido só de pensar que não tinha o que fazer naquele dia, nem no dia seguinte, nem no outro, e, depois do fim-de-semana, chegaria o dia em que o professor tinha que dar aula: daí eu faria três coisas inteiras e voltaria a não ter nada para fazer.
Mas mesmo quando você sai dele o monstrão dá um jeito de estender seus tentáculos malemolentes em sua direção. Depois de ter feito tudo que a mulher da secretaria do meu departamento tinha me dito que era necessário para pedir demissão, eu pirulitei do CJE, para nunca mais voltar, pensei eu. Pois que duas semanas depois, de manhã, eu recebo uma ligação da mulher da secretaria, e em seguida, uma dos recursos humanos da ECA, ambas dizendo que eu tinha que aparecer lá urgentemente.
Fui no mesmo dia, levando minha carteira de trabalho. Falando com a mulher do RH, descobri que meu pedido de demissão tinha demorado duas semanas para subir até lá, e que estava todo errado e, portanto, inválido. Além disso, se eu simplesmente largasse o emprego como tinha feito, teria que pagar um salário de multa, e não simplesmente deixaria de recebê-lo, como pensava que aconteceria. Para não pagá-lo, eu teria que fazer um mês de aviso prévio.
Revoltadíssimo com o mundo e com a incompetência de todos envolvidos na história, eu fui negociar os horários na DROM, onde tinha ido trabalhar, e acabei conseguindo trocar de horário para o turno das três às oito da noite. Então passei a trabalhar das oito às duas da tarde na ECA, ainda sem fazer nada, e daí corria para a DROM, onde ficava até que o chefe me liberasse (nunca antes das oito e meia, várias vezes depois das dez).
No fim do mês recebi um salário da ECA descontado dos dias que tinha faltado, e, depois que o suplício da jornada dupla acabou, fiquei esperando o equivalente dos quinze dias restantes mais meu décimo-terceiro. Um mês depois, nem sinal da grana. Liguei pro RH para reclamar do dinheiro, e tive que ouvir a mulher me responder "Olha que você recebeu sim, hein? Tem certeza que não gastou sem notar?", ao que tive que responder que, minha senhora, se MIL E TANTOS REAIS tivessem caído na minha conta, eu sem dúvida perceberia isso e sairia pulando de alegria por aí.
Como ela ainda não estava convencida, eu tive que tirar um extrato dos últimos dois meses e ir lá mostrar pra ela que não tinha mil e tantos reais escondidos em lugar nenhum da minha conta. Daí ela ligou pra um, ligou pra outro, esperou, ligou pra outro, e descobriu que realmente eu não tinha recebido o dinheiro! Eles tinham mudado o sistema dos computadores da área financeira da USP, e várias pessoas na minha situação estavam sem receber também. E, mas bacana, não tinha previsão de quando a grana ia chegar! Super duper!
Como não tinha remédio, peguei minha carteira de trabalho de volta, e fiquei a esperar o tutu. Esperei sentado duas semanas. Quando chegou, reparei o rombo que tinha feito na minha poupança nesses tempos de necessidade, e, com o que sobrou, fiz uma pequena orgia consumista, para comemorar minha liberdade do funcionalismo. E viva a propriedade privada.