A vida sexual dos cães é uma coisa complicada, sobre a qual eles têm muito pouco controle. Quando não são condenados à castidade eterna, em geral não têm o direito de escolher seus parceiros, sendo vitimizados por seus instintos à vontade de seus donos. Provavelmente a única vantagem de se ser um cão de rua é poder ficar seguindo uma cadelinha no cio o dia inteiro junto com seus outros colegas babões, e quem sabe deixar um filhotinho pra ela carregar mais tarde.
A Luana, nossa poodle-que-pensa-que-é-gente, por ser uma cãzinha de família, tem que se conformar com uma vida sexual mais restrita que as das sinhazinhas de engenho. Quando ela virou mocinha e entrou no cio pela primeira vez (ocasião em que assediou sexualmente todos os bichos de pelúcia da Ana Paula), Mãinha resolveu não deixar aquilo se repetir, e o veterinário começou a aplicar hormônios nela a cada seis meses. Há um ano resolveram que era melhor castrá-la de uma vez, mas para isso ela tem que ter uma ninhada na vida pelo menos. Então pararam com os hormônios, para que ela pudesse aproveitar os prazeres da carne uma última vez antes de ter sua luxúria semestral removida.
A primeira surpresa foi que aqueles hormônios que "não duram mais do que seis meses" continuaram fazendo efeito na Lulu por quase mais um semestre. Mas, depois de bastante esperar, ela começou a raptar o dálmata de pelúcia para a caminha dela e passar a noite se esfregando nele como antes. Mãinha então arranjou um distinto poodle toy, seis anos mais velho que nossa virgenzinha, para deflorá-la, ainda deixando como dote o primogênito da pobrezinha. Se fizer uma versão humana dessa história, todo mundo vai achar muito cruel, mas para cães, tudo bem.
Se serve de compensação, a Lulu sugou até as últimas forças do cãozinho velhote. Sabemos disso porque o Anselmo não deu sequer um momento de privacidade para o casal. Acabada a horinha de luxúria e lascívia, no entanto, o cão levantou as calças e voltou pra casa, tendo cumprido sua missão de embuchar tão jeitosa cadelinha. A comprovação da eficácia do velhinho tarado não demorou muito a aparecer.
Tem-se que explicar que a Lulu é tem trinta centímetros mas pensa que tem dois metros, defendendo vorazmente nossa sala de estar de quaisquer estranhos que adentrem nossa casa. O fato dela também ser míope faz com que qualquer um a mais de meio metro de distância seja um estranho pra ela (eu inclusive) até que ele a comprimente, o que a transformou numa excelente campainha, mas uma péssima cã de guarda.
Bem, os instintos protetores da Luana aumentaram pelo menos dez vezes. Agora não tem carinho que a faça parar de latir para os seres alienígenas que volta e meia adentram nossa casa. Outro dia o Davi caiu de pára-quedas lá em casa, e a Lulu cumpriu sua obrigação tentando expulsá-lo no grito. Não deu certo, e ele ainda comentou "Eu sei que vocês gostam dela e tudo mais, mas, se ela antes era insuportável, agora ela está inconcebível!". Eu tive vontade de responder que inconcebível era sua pessoa, e que a gente gosta muito dela que dele, mas minha educação humana não me permitiu. Já a Luana, muito mais sensata, não parou de soltar o verbo um minuto.
Conforme as semanas passam, ela vai ficando cada vez mais choca. Ela faz xixi a cada trinta minutos, e, por causa do que lhe deve pesar os filhotes, não corre mais quando vai passear. Na verdade ela agora tem medo até de pular pra cima do sofá, o que antes fazia sem pensar duas vezes. Agora ela passa o dia quieta no alto da escada, com o olhar distante, quem sabe a pensar naquele sessentão que tomou sua pureza numa tarde de primavera…
Depois desse texto, pode-se chegar à conclusão de que a Luana não é a única a pensar que ela é gente.