Eu ainda não me conformo com a eleição do Enéas. Sim, pelo menos a gente não corre o risco de ter o Maluf como governador, mas ver o Enéas empurrando mais sete candidatos do Prona pra câmara é triste. No trabalho não se falava de outra coisa na segunda-feira, todos revoltados. o comentário era um só: tanta gente achou que seria engraçado votar no Enéas que deu no que deu.
O dia de votação foi bem tranqüilo pra mim. Mãinha e Pai votam em Araraquara, então foram pra lá com a Ana Paula no sábado. O Danilo teria que passar mais uma eleição como mesário (parece que ele já escalou quase todos os postos do colégio eleitoral), então mal o vi no domingo.
Acordei cedinho, catei o carro e fui pra casa da Kika buscar o radinho a pilha que ela tinha comprado pra mim de aniversário. Depois fui pra escola Aníbal de Freitas, onde eu voto, desviei do monte de flanelinhas que estavam tentando explorar um evento tão cívico, e parei o carro três quarteirões pra cima da escola. Ando no sol quente, mas não pago flanelinha.
Eu mal conseguia ver a porta da minha seção, tamanha a fila que tinha nela. Vendo que ficaria ali um bom tempo, saí da escola, fui pra uma banca, comprei uma revista e corajosamente voltei para cumprir meu dever de eleitor. Nesses vinte minutos entre ir e vir, a fila já tinha aumentado bastante. Resignadamente liguei o radinho, abri a revista e fui conquistando cada centímetro do corredor até a classe onde eu votaria.
Atrás de mim estava uma mulher que não devia dar fazia já algum tempo e estava revoltada com o mundo. Não parava de reclamar um segundo, "que é um absurdo isso, eu venho cumprir minha obrigação e tenho que pegar fila, nesse calor insuportável, porque eses políticos são todos iguais, e esse pessoal que corta a fila…". Eu só concordava com ela com relação ao calor (quando começou a passar um pessoalzinho distribuindo folhas de papel pro pessoal se abanar, eu vi que as coisas estavam realmente preocupantes), de resto eu fazia o possível pra me concentrar no radinho e continuar lendo a revista.
Quando eu já estava chegando na porta da classe, uma mulher chegou carregando um moleque chorão. Ela queria entrar na fila do povo preferencial porque tinha uma criança de colo. A tiazinha atrás de mim começou a reclamar imediatamente, dizendo que o moleque conseguia andar e portanto não era do colo, e a outra começou a brigar de volta, dizendo que não podia largar ele chorando por aí pra ir votar. Depois de minutos de briga, a mãe do choroso entrou na frente da resmungona, que imediatamente ofereceu uma balinha pra acalmar o garoto. Eu suspeito que ela tinha naftalina.
As razões de tanta fila ficaram claras quando entrei na sala de aula: havia apenas uma urna em cada sala, o que tornava tudo muito mais lento. Parece que o governo encontrou a forma mais rápida de fazer uma eleição totalmente eletrônica distribuindo as urnas que já existiam por aí. Eu, acostumado a caixa eletrônico e tudo mais, e ainda provido de colinha, votei tão rápido que chegou a ser frustrante. Tanta espera para apenas alguns segundos de voto. Deviam pelo menos elogiar nosso esforço cívico pra gente se sentir melhor.
À noite Pai e Mãinha chegaram, e a gente começou a acompanhar pela tevê a apuração dos votos. Mãinha, PSDBista de adesivo ferrenha, comemorou até não poder mais a ida do Serra ao segundo turno. Eu fiquei contente mesmo com a queda do Maluf.
Segunda-feira o Bom-dia São Paulo deu a lista dos novos deputados, e nenhum dos que eu votei se elegeu. O que é uma pena. Eu só espero que o segundo turno, com menos opções, tenha menos fila.