Momentos históricos

Existe certas horas que você se sente num momento histórico. Eu me lembro de alguns. Me lembro, por exemplo, de quando a Guerra do Golfo começou, que a Globo ficou a noite inteira noticiando ao vivo e mostrando os bombardeios no Iraque, e eu, na tenra quinta série, preocupado que a Terceira Guerra Mundial ia começar, que Nostradamus tinha previsto isso e ia ser o fim do mundo.

Outro dia com jeito de momento histórico foi quando jogaram os aviões no World Trade Center, e eu, ja menos tenro no terceiro ano de faculdade, assistindo a tudo na Globo na faculdade, preocupado que ia comecar a Terceira Guerra Mundial, que eu ia ter que ir pra frente de batalha, que Nostradamus tinha previsto isso e ia ser o fim do mundo.

Mas, felizmente, nem todo Momento Histórico é uma desgraceira. E Nostradamus não previu isso, e aparentemente o mundo não vai acabar (se bem que a Globo noticiou o evento incessantemente). Todo mundo já sabia que isso ia acontecer, mas teve um ar de novidade (o que é, afinal, o mínimo que se pode esperar desse evento) a vitória do Lula pra presidente.

O dia foi todo tranqüilo hoje. O Danilo me acordou pra levar ele para a escola onde ele já amarga há várias eleições o privilégio de ter participação na "festa da democracia" como mesário. Eu, que entrando com ele pude furar todas as filas, enrolei até as oito horas e fui um dos primeiros da minha seção a votar. Depois fiquei o resto do dia tentando sem sucesso escrever coisas para cá, para o Rabisco e para a USS Whatever.

Pai e Mãinha chegaram de Araraquara, onde votam, umas oito da noite, e daí, voluntariamente, a família toda se reuniu na frente da tevê para acompanhar as apurações. Mãinha é tucana de bico roxo, e compensava as frustrações presidenciais nas derrotas estaduais do PT. Já a Ana Paula estava muito mais interessada em fazer de mim um playground humano que acompanhar as eleições per se. Anselmo, que também se revelou um tucano de carteirinha, achava tudo uma desgraça, e Danilo, Pai e eu ficávamos na nossa.

Por volta das nove o Fantástico anunciou que o Lula havia sido oficialmente eleito. Vinte segundos depois o telefone tocou. Todos nós tínhamos certeza de que seria o Tio Zé, que desde o começo da campanha eleitoral vem nos enchendo a paciência com discursos do PT. Com certeza ele estava ligando para cantar vitória. Depois de muito tocar, eu me resignei e atendi. Era o orientador do meu TCC, para o alívio e riso de todos nós. O coitado não entendeu a razão de tanta risada.

Depois, seguiu-se o acompanhamento televisivo dos fatos: a Paulista cheia, os repórteres se matando pra tentar conseguir a primeira declaração presidencial do Lula, o discurso do novo presidente no hotel… Muito emocionante. Não dava para não sentir um certo orgulho patriótico. É desculpa pra achar que as coisas vão ser melhores amanhã, e isso sempre faz bem.

Daqui a anos e anos, vão repetir essas imagens que a gente viu hoje, e vão estudar nos livros de história o que aconteceu agora há pouco. Provavelmente o ponto de vista não vai ser tão romântico assim, e caberá a nós lembrarmos que, no dia de hoje, todo mundo, quase inevitavelmente, foi dormir um pouquinho mais contente. Pelo menos hoje.

Outro momento histórico que eu me lembro de assistir na onipresente Rede Globo foi a morte do Tancredo Neves. Eu me lembro de ter ficado muito revoltado, porque estavam interrompendo o meu Balão Mágico pra ficar mostrando aquilo e o Balão Mágico não voltava e aquilo não acabava nunca. O que me importava daquele velho no Incor, eu queria a Simony!