Siso se escreve com S e S, e não com C e S como eu pensava. Siso, e não ciso. Impressionante. Vai pra minha lista de palavras simples que eu não sabia como se escrevia, junto com exceção. Tipo de coisa que só se aprende quando se tem dois arrancados da sua boca.
Pois sim. Agora, segundo a lenda, eu deverei estar muito mais sábio. Ou será que perdi a sabedoria agora que não fazem mais parte de mim? Não sei. Mas precisei arrancar dois dentes do siso.
Por uma dessas brincadeiras do destino, meu irmão gêmeo, geneticamente igual a mim, só desenvolveu os dois dentes superiores do siso. Eu, muito mais eficiente, desenvolvi os quatro, mas na pressa eles ficaram todos fora de prumo. Mal conseguiam sair da gengiva, tadinhos. E, portanto, teriam que sair na marra.
Mãinha, sendo ortodontista, já estava com comichão de dar um jeito neles faz tempo, mas eu não queria. Até que, duas semanas atrás, eu fui me consultar ela pela primeira vez em mais de um ano. Ela olhou a boca, falou (para meu espanto, já que escovo muito os dentes) que eu estava com cárie, e podia aproveitar pra trocar as obturações de metal por umas de resina que parecem dente de verdade. E podia aproveitar o embalo e fazer branqueamento dos dentes, além de poder também resolver um vãozinho que surgiu nos meus dentes da frente depois que tirei o aparelho. Mas, se fosse fazer isso tudo, a primeira coisa a se fazer era dar um jeito nos dentões do ciso, deitados lá no fundo da boca na maior preguiça. Não tinha muita vontade, já que não me incomodavam, mas marquei duas consultas para o começo de agosto para fazer o serviço.
Pois que, quatro dias antes da consulta, eles começam a incomodar. Então foi até com certa resignação que eu fui pra Camps no sábado, me preparando para as extrações que faria na segunda. Tinha eu acabado de almoçar quando mãinha vem e me diz "Hmmm, sabe, acho que é maldade arrancar seus sisos e te colocar no ônibus pra São Paulo em seguida. Acho que a gente podia fazer isso hoje mesmo, que daí eu cuidava de você hoje e amanhã". A idéia realmente era boa. Mas eu não estava preparado pra isso. Mas, já que não tinha solução mesmo, juntei minha pouca coragem e fui pro consultório.
Não havia muita razão pra temer, na verdade. Mãinha tem uma grande reputação por extrações de siso rápidas e indolores. As pessoas saem tão felizes com a eficiência do processo que mãinha tem que lembrá-los que aquilo não é bolinho e eles não podem sair saltitando por aí como gostariam. A do Danilo foi tão bem que ele foi malhar na academia trinta minutos depois da extração.
A pior parte é a anestesia mesmo. Já faz quase vinte anos que Mãinha me anestesia, e o processo não mudou nada: primeiro um creminho anestésico com gosto de laranja muito forte. Depois ela pega uma mega injeção de ferro com uma agulha do tamanho do meu nariz (que não é pequeno) e a enfia em vários pontos da gengiva. Depois disso, no entanto, não teve problema: ela pegou na minha mandíbula de jeito com uma mão, alicatão na outra, e tloc-ttlloloc-tloc-tloc, tinha virado os sisos pra cima. A sensação é ruim (você ouve sons na sua cabeça que nunca pensou que seus ossinhos seriam capazes de fazer), mas não dói. E daí TLAC, o dente sai.
A ironia de se ter uma mãe ortodontista que faz o serviço ela mesma é que, apesar de você ter certeza de que está em boas mãos, não tem ninguém pra segurar na sua enquanto a dentista faz essas barbaridades.
Você não tem noção de como são grandes os sisos até que você os vê lá, na palma da sua mão, olhando pra você.
Durante o procedimento eu tremia com o corpo todo. Depois do desfecho rápido e indolor, eu estava tão grato que mal me segurava de pé. Daí veio a euforia de que tinha dado tudo certo, me senti que nem comercial de modess, com vontade de correr, saltar, andar de bicicleta e jogar tênis, e mãinha teve que me lembrar que ela tinha acabado de causar duas fraturas na minha cabeça e tinha que descansar. O que é verdade, apesar de ninguém nunca ver isso desse jeito. Receitou uns analgésicos e antiflamatórios e fomos pra casa.
Os dias seguintes que são problemáticos. Além do fato de acordar no dia seguinte com o travesseiro cheio de baba com sangue, é só você bobear no analgésico que a dor toda volta. E daí você toma o analgésico e fica com sono. Dorme e acorda, horas depois, com a boca toda doendo, porque dormindo deixou passar a hora de tomar analgésico.
Sábado que vem eu vou arrancar os sisos do outro lado da boca. O suspense está me matando.
Quase meia-noite. Só mais trinta minutos pra poder tomar o analgésico e poder dormir.