Há quase dois anos eu me dei um piercing de aniversário. Tinha feito21 anos, estava com vontade de colocar um fazia tempo, e o salário que eu estava recebendo nA Revista me permitia isso. Contei a idéia pra Juliana, uma colega minha que já tinha vários piercings e tatuagens, e ela fez questão de me levar fazer piercing com um amigo dela. Fui lá para ver como era, saí de lá com um piercing preto de titânio no alto da orelha, muito chique.
Quase um ano depois minha orelha, que havia se comportado bem, resolveu se rebelar e tentar engolir o piercing. Depois de meses de luta, eu cedi e tirei o ferro (agora uma argola de ouro branco, mais chique ainda), na esperança que o calombo diminuísse. Que nada. O buraco fechou, mas o calombo continuava.
Sendo assim, dois meses atrás fui eu, munido da carteira de funcionário, no HC da USP para consultar com um dermatologista de plantão. Depois de esperar meia hora numa fila e uma hora em outra, fui atendido por um chinês jovenzinho chamado Dr. Ruh. Mostrei azoreia pra ele; o dotô me explicou que minha pele tinha feito uma supercicatrização, e me receitou um remédio creminho a ser feito em farmácia de manipulação. "Passe isso duas vezes por dia, e volte em 35 dias."
Fiquei eu, com a maior paciência, aplicando o dito remedinho antes de dormir e depois de acordar. Um mês depois, a bolota onde era meu piercing não tinha diminuído muito. Semana passada voltei eu pro HC.
Depois de esperar duas horas para ser atendido, meu curandeiro chinês me recebeu. Depois de lembrá-lo da minha desgraça, ele olhou bem, disse que isso ia demorar, e me perguntou se ainda sobrava bastante creme. Sim, disse eu.
"Então você compre um rolo de magipack, corte um quadradinho, e cole-o sobre a cicatriz com micropore. E daí pegue um brinco de pressão ou um prendedor e o coloque em cima, e o deixe lá quanto tempo você aguentar.." E fez uma cara tão desenxabida que eu fiquei esperando ele falar "BRINCADEIRINHA!!!". Mas ele não disse isso. Conferi se o procedimento era esse mesmo, e saí do hospital me perguntando por que eu.
Três dias depois, encontrei o Guilherme, um amigo meu que faz Medicina com o meu irmão, e ele me confirmou que o procedimento fazia sentido. Graças a isso, meu apartamento viu um rolo de magipack pela primeira vez desde que mudei pra cá. E, numa noite solitária do feriado, fui tentar fazer o dito curativo.
Nada podia ser mais difícil. Tente cortar um quadradinho de magipack e mantê-lo esticadinho enquanto corta as fitinhas adesivas. O lixo do meu banheiro ficou cheio de bolinhas de plástico. Depois, aplicar toda a minha coordenação motora pra conseguir colar o troço na orelha. Sobra fita para todos os lados, que gruda no cabelo, não gruda direito nas curvinhas auriculares, e, dependendo de pra onde se estende, causa surdez temporária.
Mas o pior mesmo é o maldito prendedor. Quando é colocado pela primeira vez, nem dói tanto, mas conforme o tempo passa a dor vai surgindo, até que, uma hora depois, a orelha está latejando, doendo demais. Tortura chinesa receitada pelo médico chinês. Isso sem falar da cena ridícra de eu com um prendedor verde preso na orelha, como estou agora.
Espero que esse sofrimento todo pelo menos sirva pra alguma coisa. Não vejo a hora de isso sarar logo, pra colocar um brinco em outro canto da orelha. Paguei caro demais pela argola de ouro branco pra ficar sem usar. Mas nesse momento agora, só consigo pensar na música do Zeca Baleiro: "tire o seu piercing do caminho que eu quero passar, quero passar com a minha dor".