Cumprindo minha obrigação patriótica, acordei cedo no dia 30 de junho para assistir à final da Copa do Mundo. Não que eu teria muita opção, já que estava na casa da Vómaria, para onde todos os tios e primos presentes em Araraquara City iriam assistir ao jogo juntos.
Afastei o sono com um bocejo. Na noite anterior havíamos todos ido à chácara da família, agora não mais uma propriedade coletiva de alguns tios, mas sim devidamente retalhada, um pedaço para cada um. Ao contrário da festa do caqui que foi a festa junina no ano passado, esse ano resolveram fazer uma comemoração superintimista, só família próxima e mesmo assim faltando alguns. Eu fui a caráter, de camisa xadrez, macacão, bigodinho de pincel de sobrancelha feito por mãinha e chapéu de palha emprestado da tia Ly. Ficamos cantando, comendo e jogando baralho até uma da manhã, quando eu já estava quase encostando numa parede para dormir. Mais uma noite de pouco sono não fez nada para diminuir minhas olheiras, mas, como já disse, não havia muita opção, não conseguiria dormir nem que quisesse.
Na hora de cantar o Hino Nacional reuniam-se na sala de Vómaria a própria, cinco tios, três tias, oito primos e três cãs. É uma pena que a gente não consiga nos reunir todos mais vezes. Não havia lugar para todos, cada um se esparramava como podia, em volta da televisão, para assistir aos jogadores e ouvir o Galvão Bueno.
Até que estavam todos comportados nessa manhã. Já vi jogos do Corínthians bem piores, em que tios e sobrinhos xingavam todas as gerações dos jogadores, juízes e técnicos, aos berros, gritavam instruções via satélite e discutiam entre si qual seria a solução salvadora. Dessa vez, reações mais fortes, apenas quando a bola passava perto do gol ou batia na trave, quando Painho batia no chão com o chinelo, todo mundo falava "aaaahn", as cãs latiam e as crianças riam à beça com o forfé que presenciavam. Mãinha, menos resistente aos poderes de Morfeus que eu, dormia com a cabeça encostada no Danilo, alheia a tudo. Painho tentava fazer o Anselmo segurar o jogo com ele, mas daí se dava conta de que o desnaturado tinha ficado em Campinas.
Finalmente fizeram os dois gols, devidamente comemorados aos pulos até por Vómaria. Depois foi só aguardar a hora do pódio, todos felizes em ver a alegria dos jogadores no Japão, todo mundo com um sorriso na cara, momento muito bonito mesmo.
Quando ia à rua na hora dos outros jogos, além do trânsito bem mais amigável, eu achava impressionante e até comovente como onde quer que houvesse um televisor havia três ou quatro pessoas assistindo à seleção brasileira. Depois da final, em Araraquara City, pude ver isso de novo: o pessoal ajeitando mesas na calçada dos bares para comemorar enquanto acompanhavam as festanças ao vivo na tevê, duas velhinhas que conversavam cada uma de um lado da rua, de trás das grades de suas casas como se fossem presidiárias, animadas com o resultado. Na casa da vó, quem tinha acessórios de bandeira os vestia, e ficava acompanhando aos poucos as comemorações.
Sim, por mais ranzinza que eu fui durante a copa, meu coração não é de pedra e ficou contente pelo pentacampeonato. Mas, mais ainda, ficou contente por poder estar junto com a grande família, para comemorá-lo adequadamente com o suquinho de cenoura e limão do tio Eraldo. Espero ainda ser capaz de fazê-lo quando chegarmos ao hécha.