A cada duas semanas eu ponho o meu cesto de roupa suja no carro de Painho na sexta, que o leva para Campinas. Quando chegar em casa no sábado, lavo todas as minhas vestes eu mesmo, garantindo minha roupa limpa por mais quinze dias.
Enquanto a rotina se mantém, esse sistema funciona perfeitamente; em semanas como as últimas, em que eu tive que ficar aqui em Sampa por causa da Bienal do Livro, o esquema fura, e a roupa vai empilhando em cima do pobre cesto. Já estava prestes a chegar no ponto vergonhoso em que seria necessário reciclar as cuecas quando resolvi aproveitar o feriado de 1 de maio para ir para Campinas fazer a lavança.
Graças à tecnologia moderna, lavar roupa nem é tão dolorido assim. Você põe a roupa na lavadora, aperta os botõezinhos e vai cuidar da vida. É claro que já dei minhas falhas no sistema. Uma vez, apertei os botõezinhos e fui pro computador. Três horas depois, a máquina ainda estava como eu a havia deixado, com as roupas sequinhas: eu tinha esquecido de abrir a torneira da lavadora. Felizmente nunca fiz nada tão trágico como colocar cândida no compartimento de amaciante sobre as roupas coloridas; o máximo que acontece hoje em dia é eu ter que segurar a máquina quando ela centrifuga as roupas, porque ela está com excesso de peso.
Mãinha tinha ido pra Bragança dar cursos, o que fez com que os irmãozinhos Caparica tivessem que se distrair entre si. Quem se diverte mais nessa é a Ana Paula. Entre uma carga da lavadora e outra, por exemplo, estávamos eu e ela lendo e-mail e ouvindo a uma coletânea de músicas infantis. Entrou uma música animadinha, eu comecei a dançar com ela. Logo chegou o Anselmo depois o Danilo, e daí parecia cena de filme: ficamos os três marmanjões fazendo coreografias, uma mais boba que a outra, e ela rindo, rindo, rindo. Divertidíssimo. Mas, como a Ana Paula também é uma mina muito culta, depois ela foi comigo assistir o DVD do show da Marisa Monte. Como ela é muito pró, ela cantou junto sem titubear TODAS as músicas do show. Maninha é um prodígio!
Minhas roupas só ficaram secas meia-noite e tanto, e Danilo e Anselmo, que estavam fazendo uma boquinha na cozinha, ficaram me fazendo companhia enquanto eu tirava as roupas do varal (ajudar a tirar? Nããããão! Ficaram lá olhando eu fazer meu serviço de escravo Isauro!). Conversando, chegamos à evidente conclusão de que com o passar dos anos e dos filhos Mãinha foi ficando banana mesmo, para o deleite dos mais jovens. Ou os filhos menos bobos, também.
Eu e o Danilo, que éramos bobos de tudo, levávamos os castigos a sério: ficávamos semanas sem jogar video-game, ou meses sem ler gibi (chegando ao máximo de comprá-los na banca e obedientemente colocá-los em cima do armário junto com os outros, sem ter lido. Eu tentava sugar o máximo do gibi nos três quarteirões entre a banca e minha casa, mas nunca era o suficiente). Já o Anselmo, hohoho, jogava vídeo-game e usava o computador escondido, e ainda tinha a cara-de-pau de nos pedir que não contássemos pra mãe quando a gente pegava ele com a boca na botija. A Ana Paula já chegou no estágio em que nem vai saber o que castigo assim significa.
Mas a história mais divertida foi a da minha calculadora. Eu tinha uma calculadora científica de estimação que comprei quando fiz intercâmbio nos EUA. Muito econômico, a usava nas aulas de engenharia, jamais pedindo para que se comprasse aquelas megacalculadoras HP que só usavam pra tocar musiquinha. Depois que criei juízo e saí da Engenharia, emprestei-a para o Danilo, que estava fazendo aulas de estatística. Qual não foi a minha surpresa quando, meses depois, ele me chega com minha calculadora tão querida toda deformada! O mentecapto tinha deixado ela no painel do carro, e, num dia de sol, a calculadora se transformou num tobogã.
Eu fiquei furibundo, e, com lágrimas nos olhos, disse que ele ia ter que pagar uma nova, e ele dizendo que não, que não tinha sido de propósito. Nós ficamos nessa querela até que eu, crente de que venceria a discussão, disse "Mãe, fala pra ele que ele tem que pagar minha calculadora!!". Ela olhou bem para ela, que não fechava mais em seu estojinho, e deu o veredito: "Ela ainda funciona, não tem que pagar nada!". Fiquei eu lá, de calculadora torta e cara de tacho.
Fazia tempo já que nós três não tricotávamos assim. Foi muito divertido. Quem pensa que mesa de Natal é o melhor lugar para reunir a família, não sabe do que um varal cheio de roupa é capaz!