Sexta-feira à tarde, marcamos um cineminha básico na Paulista. Considerando o trânsito normal da sexta-feira à tarde, ainda mais com a chuva que tinha caído, combinei com Katchu de pegarmos o busão às seis, pra chegarmos no cinema às sete e meia. O ônibus não demorou muito a chegar, a gente foi conversando animadamente pra fora da USP.
Assim que escureceu, o ônibus encontrou um engarrafamento. Nada demais. Dez minutos depois, o assunto acabou e a gente resolveu jogar o jogo dos pontinhos. Tracinho aqui, troca cor, tracinho ali, troca cor.
Vinte minutos, a Katchu diz "Ah, esse jogo tá muito chato, vamos jogar palavras cruzadas". "Tá bom, vamos jogar com nome de músicas". "Lanterna dos Afogados" cruza com "Malandragem" que cruza com "Bem que se quis"…
Trinta minutos, a Katchu liga pro Marcel, pra avisar que a gente ainda estava parado no mesmo lugar, e que provavelmente nos atrasaríamos.
Quarenta minutos. "Katchu, cansei disso. Vamos mudar de tema." "Certo, então vamos mudar pra ‘sexo’ que é mais divertido!". "Sexo" que cruza com "penis" que cruza com "coito"…
E nada do ônibus andar. Não é que ele andasse devagarzinho. Ele não andava mesmo. "Masturbação" cruzou com "clitóris" que cruzou com "cunilingus" que cruzou com "felatio". Depois de cinqüenta minutos exatamente no mesmo lugar, o Marcel liga pra Katchu. Segundo ele, o Anhangabaú estava alagado, ninguém passava por lá. O show do Roger Waters não ajudava muito a situação, o que explicava que o trânsito estivesse simplesmente imóvel. Depois desta revelação, resolvemos fazer o que vários passageiros do ônibus tinham feito antes da gente: descer e seguir a pé.
Montes e montes de gente saíam dos ônibus também, inundando as calçadas. Alguns motoristas, revoltados com o trânsito, passavam por cima dos canteiros e voltavam pela outra via da avenida, que estava vazia, já que ninguém conseguia chegar nela mesmo. Outros, mais conformados, tocavam O bonde do tigrão a todo vapor. Motoristas de ônibus e cobradores, que nada podiam fazer, seguiam milimetricamente para frente.
É sintomático de que o trânsito estava em situação crítica o fato que nós conseguimos atravessar o megacruzamento da Vital Brasil na entrada da marginal, e chegar no pontilhão vivos.
Esta foi uma situação pela qual eu nunca achei que passaria: atravessar a ponte Eusébio Matoso a pé. Fomos passando pelos carros e ônibus parados, um a um, encostados no lado direito da ponte, vendo as fileiras de faróis na marginal logo abaixo, e o rio Pinheiros que não refletia nada. Os motoristas, de dentro dos carros, nos olhavam com um pouco de inveja.
Katchu, com todo seu fôlego de fumante, tentava sublimar o fato que estava caminhando quilômetros e quilômetros entre automóveis. Foi um dos momentos em que eu fiquei contente de não ter carro, por ter essa opção de, no caos do trânsito, poder simplesmente sair andando.
E até que não estávamos tão mal assim. Fizemos da Vital Brasil, Teodoro acima, em cinqüenta minutos, e da minha casa até a Paulista em mais trinta. Não dava mais pra ver o filme, mas este momento surreal valia mais que o ingresso do filme e a passagem de ônibus. Muito mais.