Estar na casa da vó é a oportunidade perfeita para remexer nas lembrançasde infância.
· Eu fui terminar de entregar (em mãos) os cartões de Natal para os parentestodos. A Ana Paula catou um, leu, olhou, olhou, e quis saber por que que ela não estava na historinha que eucontava nos cartões. Eu expliquei que ela não tinha nascido ainda quando a história aconteceu.Ela não se convenceu muito.
· Conversando com a tia Ly e puxando os longos fios da memória, eu perguntei pra elao que tinha acontecido com a faca elétrica que ela tinha ganhado no casamento dela, e que tanto tinhame impressionado na tenra infância. "O ladrão levou", disse ela. "Junto com a televisão,o videocassete, o aparelho de som e a aliança do seu tio…".
· Puxando ainda mais o fio da lembrança, acabamos fazendo uma revelação bombástica.Quando eu e o Danilo tínhamos uns onze anos, e o Anselmo tinha sete, a gente fazia campeonato na hora do almoço paraver quem comia mais rápido. Só que, na verdade, esta era apenas uma tática para fazer o Anselmo comer tudo.A gente deixava ele ganhar, porque, assim, ele comia tudo que estava no prato. Só agora que ele tem dezoito aninhos éque o Anselmo descobriu, chocado, a verdade.
· Ouvindo o meu pai cantar suas versões… hmmm… diferentes de grandes sucessos da MPB, eu contei para minha mãe da vez que eu fui tocar num evento artístico que a minha escola, o Imaculada, promoveuna oitava série, e eu participei. Antes de mim tocou a Fabiana, uma menina cega que, além de ser uma das melhoresalunas da escola, era excelente pianista, e, obviamente, deu show. Depois foi a minha vez. Sentei, errei, engasguei, voltei promeio da música, finalmente terminei de tocá-la, e saí rapidamente do piano, mal ouvindo os aplausos educados.Logo depois foi tocar a Paula, uma menina que, na oitava série, era pianista profissional, e pra quem aquela apresentaçãozinhade escola era menos que fichinha. Envergonhado, no dia seguinte eu cortei minhas franjas tijelinha para que ninguém me reconhecesse.Há males que vêm para bem.