Formatura é assim: o formando faz toda a família colocar trajes finos e a arrasta para uma festa na qual eles não têm função nenhuma, a não ser, talvez, dançar uma valsa. O formando se diverte à beça com seus amigos que estão se divertindo à beça, e os outros 90% da festa ficam sentados na mesa comendo salgadinho e esperando a festa acabar.
É claro que o parágrafo acima pode ser um comentário rancoroso de alguém que nunca jamais teve uma formatura na vida.
Hoje foi a festa de formatura de terceiro colegial do Anselmo. Como prova de afeto fraternal, me enfiei num terno, apertei o pescoço com uma gravata e fui com o resto da família até a RED, uma casa de shows fora de Campinas, onde seria a formatura. O Anselmo já saiu de casa dizendo "Hoje eu vou chapar o coco!!". Isso porque ele queria ir dirigindo (sem carteira).
Quando chegamos, descobrimos que tinha mais ou menos umas cinco mil pessoas no lugar. Muito práticos, os manda-chuvas do Anglo pegam o mesmo dia para fazer as formaturas de todas as turmas das unidades Castelo, Taquaral, Amparo, Indaiatuba, Valinhos, Vinhedo e mais alguma que eu não me lembro agora. É muito engraçado ver aquele monte de adolescentes vestibulandos vestidos de gente grande, passa uma perene sensação de que o defunto era maior.
Para dar conta de todos os trocentos alunos que se formavam no evento, fizeram uma linha de montagem para entregar os diplomas. Os quais, para começar, nem tinham os nomes dos formandos: assim os pimpolhos podiam entrar na fila que lhes cabia em qualquer ordem para receber seus canudos. Duas filas corriam ao mesmo tempo. Chamavam os alunos de tal unidade, o aluno entrava na fila, encontrava o professor, recebia o canudo, cumprimentava, ia para o fotógrafo e tirava uma foto com o tubinho na vertical e outra na horizontal. Pronto, se formou, tá vendo como é simples?
O mais divertido foi quando passaram um vídeo com aquelas mensagens de sempre sobre como os alunos são lindos e inteligentes e têm um futuro brilhante pela frente. Pediram para que todos olhassem para os telões, e começaram a passar um pout-pourri de todas as desgraças do ano: avião batendo, WTC caindo, Herbert Vianna paraplégico, Jader roubando… super inspirador. E depois os aluninhos, é claro.
O Anselmo logo sumiu entre os adolescentes outros, e nós ficamos tentando interceptar os garçons para conseguir alguns salgadinhos. Volta e meia ele aparecia, segurando um copo de uísque, progressivamente mais bêbado. Quando deu meia-noite e meia, eu peguei a chave do carro e fui embora, e deixei os pais e padrinhos responsáveis pelo garoto cuidarem do pequerrucho.
Às duas e tanto da manhã chegaram todos. O Anselmo, que tinha cumprido a promessa, ia se apoiando nas paredes, mal conseguia abrir o olho, só vendo pra ter noção de como era feio. Começou a tirar a roupa para dormir, chegou uma hora que foi tirar a meia, levantou um pé e ficou pulando em círculos com o outro, tentando puxá-la sem sucesso, que nem um cão correndo atrás do rabo.
No dia seguinte eu fiquei sabendo que maninho perdeu os óculos em algum ponto da festa. Sorte dele que o Danilo trouxe um outro par que ele tinha esquecido nos States.