Teste imunoenzimático

Você não sabe a coragem que precisa para fazer certas coisas até que você resolve fazê-las. Teste de HIV, por exemplo.

Eu nunca transei sem camisinha, nunca tomei drogas (eu nem tomo café, menos ainda drogas…) nem tive transfusões de sangue. Mas enfim, achei que tava na hora de ver se o fator shit happens não tinha acontecido, e passar a ter a tranquilidade de saber que estava tudo nos conformes.

Mas entre resolver que deve fazer e fazer mesmo tem um GRANDE passo. Bate aquele medo irracional (e natural) do teste dar positivo, por mais impossível que seja. Dá medo de fazer. Afinal, se você não fizer não vai receber notícias desagradáveis, não é mesmo? Parece que fazer o teste é que vai te deixar com AIDS, e não trepar mais que macaco em zoológico sem as devidas precauções.

Cheguei pra mim mesmo um dia e falei "Marcio, larga mão de ser BUNDA MOLE!!". Tomei banho e fui para o posto de saúde mais próximo. Cheguei lá onze e meia da manhã, e perguntei onde é que fazia teste de HIV. A moça me disse que eu teria que assistir a uma palestra sobre DSTs, e a próxima era só à uma da tarde. Então estiquei até a casa da Thaís, que era perto, coloquei a fofoca em dia, e meio-dia e meia voltei para o posto, com as pernas meio bambas.

Falei que queria fazer o teste de novo, e a moça me deu um formulário para responder. Sentei perto de duas meninas que também estavam preenchendo o formulário e comecei a responder. No fim estava "Esta é a primeira vez que você faz exame?". Sim, coloquei. Abaixo estava "Se não é, por que você está fazendo de novo? A) Teve relações sexuais sem preservativo B) Compartilhou seringas" e mais algumas opções. Eu fiquei lá pensando em como tem que ser besta para se fazer passar por isso mais de uma vez, só da primeira eu já estava achando o suficiente para o resto da vida. Então eu espiei as minas ao lado, e a que estava lá para fazer o teste (a outra só estava acompanhando) estava marcando uns dois ou três quadradinhos na parte dos reincidentes…

Perto da uma chegou um pessoal de uma comunidade próxima, todos com um jeito meio ignorante e bastante velhos, alguns com uns dentes faltando na boca. Entraram na salinha da palestra, um deles começou a distribuir folhas de caderno para que todos anotassem a "aula", e o médico entrou.

A minha paciência para assistir aquela palestra era mínima, já que tudo que o doutor estava falando ali eu já sabia de trás para frente. Eu só queria que acabasse logo para eu poder fazer o teste de uma vez. Mas eu vi que é algo necessário mesmo. O povo não sabe nada. Quando o doutor perguntou, por exemplo, quais eram as DSTs, começaram falando o óbvio, "AIDS!", "Sífilis!", e, pouco depois, "Câncer!", o que foi desmentido pelo médico. Aí levanta uma outra senhora e pergunta "Doutor, hemorróida passa assim?". Não, não, disse ele. E foi, foi, foi, explica, mostra, aconselha. Chegou uma hora que ele disse "Por isso, para evitar pegar doenças, vocês têm que diminuir o número de parceiros! Não fiquem aí saindo com todo mundo!", ao que a acompanhante deu uma sutil cotovelada na amiga como quem diz "Tá vendo?", e as duas começaram a ter ataque de riso. Eu, que não tinha feito nada de errado, muito mais preocupado que a mina, que provavelmente tinha dado mais que chuchu na cerca.

Finalmente a palestra acabou, e um tempinho depois me chamaram para fazer a coleta. Estendi o braço, fiquei valente e deixei a enfermeira me furar. Ela encheu três frasquinhos com o meu sangue, colou adesivos neles e me mostrou. Neles estava escrito meu nome, minha data de nascimento, e meu número de identificação, blablablablabla-seis. Depois de fazer entrevista, recebi meu cartãozinho do posto de saúde, e fui pra casa esperar duas semanas.

Já estava na rua quando resolvi ver o meu cartãozinho. Olhei o número e vi que estava blablablablabla-cinco. Eu quase entrei em parafuso, voltei correndo para o posto, e fui falar com a enfermeira. Ela fez meio que uma cara de "ai, saco", fechou a porta, e foi encontrar meus frasquinhos, onde realmente meu número estava errado. Ela corrigiu na hora, e me mandou ir com deus.

Hoje eu fui buscar o resultado. Fui o caminho todo ensaiando a reclamação que eu faria para seja quem for que me atendesse e me desse o resultado. Cheguei lá, tinha uma médica, que pegou minha carteirinha, encontrou o exame e me levou pra uma salinha. Depois de fechar a porta, abriu o resultado, confirmou se o meu nome e minha data de nascimento eram aquilo mesmo, e disse que estava tudo bem, estava tudo negativo, não-reagente, limpinho da silva. Para HIV, sífilis e hepatite B e C. Me baixou uma alegria que eu nem me preocupei mais com a reclamação, eu só sabia agradecer e agradecer. Fui para a faculdade todo feliz e contente, pulando e cantando.

Esse é o fato interessante de se fazer testes sem necessidade: você se preocupa à toa, mas fica alegre sem motivo também quando tudo dá certo, como deveria dar.

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