Uma das coisas que eu gosto (e que mais dá trabalho) em fazer a Artigo Definido na aula de Laboratório de Produção Editorial é realizar as entrevistas para as matérias da revista. É um ótimo pretexto para conhecer lugares e gentes que em geral não se tem a oportunidade de conhecer.
A primeira vez que fiz uma entrevista dessa foi quando eu ainda trabalhava nA Revista, numa matéria sobre a própria. Marquei as entrevistas com os responsáveis um mês antes e confirmei uma semana antes. No grande dia, o resto do grupo chegou, e a gente foi entrevistar o Big Boss da Redação. Eu fiquei irracionalmente nervoso, eu lá, mero estagiário, entrevistando o Poderoso Diretor Editorial, o fato de ele estar sendo super gente fina não ajudou nada. Eu tremia, e endurecia todos os músculos do corpo para não tremer e parecer relaxado. Quando a entrevista terminou, o Wagner me perguntou se eu queria um Lexotan. A gente ainda entrevistou a Diretora Comercial, e, depois, às oito da noite, um dos donos dA Revista ainda me deu entrevista antes de ir embora.
Desde então eu já entrevistei um monte de gente, estou mais acostumado e não preciso mais de um Lexotan antes e outro depois. Se não fosse o trabalho de transcrever as entrevistas depois, eu me divertiria mais ainda.
Semana passada eu e a Mariana fomos entrevistar um padre, editor da Ave Maria, para uma matéria sobre Bíblias que vai sair no próximo número. A minha experiência mais recente com padres foi no batismo do Anselmo, três anos atrás, quando cheguei à conclusão que padres são meio carentes e adoram ter com quem conversar ("Vocês têm que agradecer seus pais todos os dias", dizia ele, "porque eles podiam tê-los abortado!!"). Esse não foi excessão. Ele era um velhinho muito simpático, de dentes mais tortos que as linhas pelas quais Deus escreve certo. Quando ele entendeu o que a gente queria para a matéria, ele começou a dar uma longa explicação sobre a história da Bíblia, muito útil. Volta e meia ele babava e limpava o pinguinho que ficava em cima da mesa com a mão. No fim ele nos deu um livro sobre a história da Bíblia, e ofereceu o acervo da editora para nossa pesquisa. Show de bola.
Ontem eu e o Wagner fomos entrevistar os editores da Cosac & Naify, uma editora de livros de arte. Já estávamos tentando conseguir esta entrevista pela assessoria de imprensa da editora desde o semestre passado, sem sucesso. Este semestre conseguimos o nome do editor, falamos direto com ele, e, surpreendentemente, em uma semana estávamos lá em sua sala.
A Cosac & Naify fica no segundo andar de um prédio perto do Largo de Santa Cecília. Lá é tudo branquinho, cheio de obras de arte pelas paredes. Eu cheguei na hora marcada, o Wagner chegou um pouco depois, fomos recebido pelo Editor, que chamou o Outro Editor. Coloquei o gravador em cima da mesa e começamos a fazer as perguntas.
Estávamos com uma pauta toda armada sobre como funcionava uma editora de livros de arte. Infelizmente (para nós), logo no começo eles disseram "É, nós estamos abrindo para literatura, ano passado nós lançamos quinze livros de arte, esse ano, com a literatura, vamos lançar 100, ano que vem, se tudo der certo, 120". A nossa pauta afundou. Eu fiquei tentando adaptar as perguntas para que servissem para uma editora em expansão ao invés de uma de livros de arte. Felizmente o Wagner bolou umas boas perguntas na hora.
Enquanto a gente conversava com os dois, O Editor puxa um papel de seda e começa a enrolar um cigarro. Fiquei naquela situação meio desconfortável, pensando "Benzadeus, será que ele vai puxar um baseado aqui??", sem querer ficar olhando pra não parecer caipira, mas querendo descobrir o que que ele ia fumar. Meus temores eram infundados, era alguma coisa que meio que cheirava a baunilha que ele fumava.
A entrevista foi chegando ao fim, e eu estranhei que a fita não tivesse terminado um lado ainda, apesar de tudo que a gente tinha conversado. Olhei para o gravador e vi que ele estava parado. "Pronto, fudeu, perdemos a entrevista inteira", pensei. Ao saberem disso, Os Editores riram, mas devem ter pensado "que tipo de manés são estes que nem checam a pilha do gravador antes de vir aqui?". Na verdade o problema era outro: o gravador girava por quinze segundos, depois parava por cinco, e voltava a funcionar por mais quinze. Temos toda a entrevista gravada, em fatias de quinze segundos.
Na saída, O Editor me explicou que a boneca de pano nua que ficava sentada entre o banheiro feminino e masculino era a Keyla, um auto-retrato de uma artista plástica que também se chamava Keyla. "Keyla Alaver??", perguntei eu. "Acho que sim", disse ele, "não deve haver duas Keylas artistas plásticas". Vendo o catálogo da Cosac, eu notei que vários dos artistas que têm livros publicados lá expõem na galeria para a qual eu estou fazendo o site. Quando menos se espera certas coisas ficam úteis.