Quando se faz intercâmbio se ganha irmãos que não são irmãos mas que são irmãos. Afinal, você morou um ano na casa deles, ou vocês se odeiam ou passam a se gostar. Eu tinha dois host brothers e uma host sister. Já o Danilo caiu numa casa com sete filhos, na qual uma das filhas mais velhas, a Nora, tinha passado um ano no Brasil. Eu infelizmente não vi mais minha host family desde que voltei para cá, há cinco anos, mas nós mantemos contato. Os irmãos do meu irmão volta e meia vêm para o Brasil.
No começo da semana passada minha mãe me ligou dizendo que a Nora e uma amiga dela estavam no Brasil, visitando o Nordeste, e que voltariam para os EUA no domingo, mas que devido às escalas iam ter que matar dez horas no aeroporto, e se eu não podia levá-las para passear em São Paulo. Claro, disse eu.
Fiquei a semana inteira tentando descobrir algo emocionante e tipicamente brasileiro em que levar as duas, sem sucesso. No domingo eu acordei, comprei o jornal e olhei meticulosamente a seção cultural, crente de que numa cidade de dez milhões de habitantes com certeza haveria algo cultural, brasileiro e de graça à tarde. Nada.
Meio-dia a Nora me liga dizendo que estava no aeroporto, eu combinei de encontrá-la na estação Tietê, e fui tomar ônibus, conformado em pelo menos levá-las para a feira da Benedito Calixto. Quando eu passo por lá, vejo que está completamente deserta. Hora de acionar o plano B: feira do MASP.
Um ônibus e um metrô depois, estou eu descendo na Tietê quando a Nora me liga dizendo que tinha perdido o ônibus, o qual de qualquer maneira era caro demais, e que pegaria um outro, muito mais barato, que a deixaria na estação Bresser. Lá fui eu desvendar os mistérios da Linha Vermelha. Felizmente a estação não era muito longe, consegui chegar lá sem problemas, e quinze minutos depois a Nora e sua amiga, Laura, chegaram.
Decidimos que comeríamos algo antes de começar a bater perna. No metrô, a Nora me perguntou dos livros que ela tinha que levar para o Danilo, e eu me dei conta que tinha esquecido eles em casa, o que nos fez mudar os planos para "vamos almoçar perto do apartamento do Marcio!". Nas conversas no metrô eu também descobri que a Laura, provavelmente temendo mazelas tropicais, tinha passado duas semanas no Nordeste comendo só pizza. E duvidando muito da qualidade da água. Nisso, um plano cruel se formou na minha cabeça, e eu disse pra elas que iríamos almoçar num restaurante mineiro, para comer torresmo. "O que é torresmo?", me pergunta a Nora. "É PELE DE PORCO frita! Dilícia!!". A Laura quase caiu para trás com a barbárie da nossa culinária.
Infelizmente o restaurante mineiro estava com uma fila de espera de uma hora, então eu as levei para um outro restaurante, meio chique, que não tinha torresmo mas tinha churrasco. Pelo que elas me agradeceram imensamente, porque não tinham tido uma refeição decente há mais de uma semana. Fiz a Nora experimentar coração de galinha, enquanto a Laura destrinchava cuidadosamente o pedaço de picanha que tinha pegado, para não comer a parte mal passada.
Fomos para o meu apê, onde descansamos depois de tanto andar. Impressionantemente, elas acharam divertidíssimo ficar vendo as minhas coisas, mais do que ir na feira do MASP ou ver os japoneses da Liberdade, meu plano C, tanto que não fizemos nenhum dos dois. Ficamos lá batendo papo.
Às seis pegamos o metrô de volta para a Bresser, experiência emocionantíssima em que a cada baldeação corríamos o risco de deixar a Laura pra trás. A qual, depois de ver um vagão cheio, comentou que não devíamos ficar pegando no corrimão do metrô, porque todo mundo fica passando a mão lá, que nem ela faz com maçanetas. Eu e a Nora ficamos bobos. Mas o pior foi quando, vendo uma campanha do metrô que mostrava um bolso com um escorpião dentro como alegoria para "proteja seu bolso", a Laura me pergunta "What’s that?". "Um escorpião, ué", disse eu. E ela diz "Tá vendo, Nora, eu te disse que tinha escorpião aqui!!!". Eu não resisti. "Laura", eu disse, "olha em volta, aqui não tem nem GRAMA, como é que vai ter escorpião??". Ela não se convenceu.
Mas enfim, deixei as duas no ônibus para o aeroporto, esperei elas subirem e fui embora. A Nora ficou morrendo de vontade de ficar, ela adora o Brasil. A Laura também disse que pode voltar, depois que ela ficou duas semanas sem pegar nenhuma doença.