Agora a Ana Paula inventou de brincar com um trambolhinho muito curioso: minha máquina de escrever.
Há uns dez anos, eu pedi de Natal pra minha mãe uma máquina de escrever, e ela me deu uma Olivetti Lettera portátil verdinha. A máquina vinha com um manualzinho com exercícios ensinando a datilografar com os dez dedos. Eu e o meu irmão fizemos todos pelo menos três vezes. O que veio a ser muito útil na não tão distante época computeira, não nos fazendo passar pela vergonha de catar milho no teclado.
Eu não tenho histórias muito comoventes sobre a maquininha verde, não escrevi meu primeiro conto nela nem nada. Ela veio a ser muito útil nas oportunidades em que era necessário preencher algum formulário a máquina. Nunca precisamos tacar ela na cabeça de ninguém para nos defender.
E ontem a Ana Paula me aparece com a máquina. É engraçado ver ela, que já nasceu toda tecnológica, tentando se virar com a Olivetti. A começar pelo pré-histórico conceito de colocar papel no rolo. Flechinhas para começar a escrever onde quer? Nada disso. Só dá eu "Ó, Ana Paula, se quiser mudar de linha, empurra esse ferrinho aqui, pra voltar na linha é só empurrar o rolo pra direita, se quiser avançar na linha você puxa esse outro ferrinho aqui que ele vai sozinho". Ela fez uma cara de quem entendeu, e puxou o ferrinho pra avançar na linha. O rolo avançou rapidíssimo pra esquerda, nada mais natural para nós, mas a Ana Paula, que não esperava nada tão abrupto assim e não estava segurando o rolo do outro lado, morreu de susto.
Passada essa fase de preparação, ela começa a digitar – e não bater a máquina: demorou muito pra ela se acostumar com o quanto você tem que empurrar as teclas até que elas cheguem no papel. Quando ela pegou o jeito, começou a apertar várias letras, o que fez com que os tipos ficassem enroscados perto do rolo. Eu digo "Ana Paula, tem que apertar só uma letra de cada vez!", e ela "Como assim, só uma??". Ainda achando esse conceito meio bizarro demais, ela fala "Tá bom, então, como é que apaga?". "Não apaga", digo eu. "NÃÃÃO????", ela me responde, assustadíssima. Depois disso ela chegou à conclusão que não valia a pena escrever nada que fizesse sentido naquele monstrinho, e ficou brincando de apertar teclas aleatórias até encher o papel.
O pior foi quando eu fiquei com saudade da maquininha e resolvi escrever um pouco nela. O Anselmo ficou abismado. "O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO??", ele vinha me dizer. "Escrevendo, ué, não posso?", eu respondia. "Mas a máquina??"
Tem gente que nunca teve infância mesmo.