Existem famílias para as quais "festa junina" é sinônimo daqueles eventos que acontecem nos clubes, no qual você paga pra entrar, fica todo anônimo na multidão, brinca em algumas barraquinhas e depois volta pra casa comendo maçã do amor.
Não na minha.
Na minha família, festa junina é sinônimo do evento que acontece todo ano na chacrinha que os tios compraram. É um daqueles eventos que reúnem a família inteira, mais que o Natal até. Todos os oito irmãos do meu pai se encontram, os que não moram em Araraquara levam a família toda pra casa da minha vó, as cunhadas colocam a fofoca em dia, os primos se vêem, os primos menores brincam dias a fio, minha vó vê todo mundo. Pra quem gosta de família é um prato cheio.
A festa junina já acontece há pelo menos dez anos. Começou como um evento só para a família mesmo, o que já garante montes de gente na festa. Mas daí começaram a convidar os amigos de um, amigos do outro. Um ano fizeram até convite impresso, pois a festa era em homenagem ao meu vô. O evento foi crescendo, crescendo, crescendo.
Esse ano resolveram aproveitar o feriado para fazer a festa, de forma que todos os irmãos pudessem vir. O plano original era que fôssemos todos na quinta mesmo, mas a festa ia ser só na sexta, e a minha família resolveu que seria bom descansar em casa um dia antes de se entranhar no ambiente familiar Carlos.
Meu pai é o irmão que toca violão e, conseqüentemente, o responsável por animar as festas. Nós, filhos, nos acostumamos desde pequenos a sermos os primeiros a chegar nas festas e os últimos a sair, o que nos deu a capacidade incrível de sermos capazes de dormir em qualquer canto, de juntar três cadeiras de bar e dormir como se à nossa volta não houvesse cinqüenta pessoas falando alto. Vem bem a calhar isso quando você precisa dormir em avião, ônibus, carro, na frente da porta de casa quando esqueceu a chave…
Esse ano meu pai montou um conjunto, e resolveu levar a bateria na caminhonete, o que não seria um problema se nós não tivéssemos que ir junto na mesma caminhonete. Nos amontoamos como pudemos entre tambores, malas, travesseiros e equipamento de som, e rumamos para Araraquara city na sexta de manhã.
Duas horas depois chegamos em Araraquara e fomos direto para a chacrinha, onde as tias estavam estendendo bandeirinhas, fazendo decoração de papel crepom, preparando as comidas, enquanto a criançada corria de um lado pra outro, ficando mais sujas de terra que tatu. Tudo ao som de modas sertanejas. Minha família não só é típica, como autêntica.
Ficamos lá a tarde toda, e eu usei a já citada habilidade para dormir num quartinho, apesar do calor, do cheiro de cavalo que vinha das selas que lá estavam guardadas e do vai-e-vem das pessoas pegando decorações. Depois fomos pra casa da vó, descarregamos a caminhonete, tomamos banho e voltamos para a chácara.
Como sempre, fomos os primeiros a chegar. Meu pai foi acertando o aparelho de som, os tios foram acender a churrasqueira, e as primas menores conseguiram fazer uma barraca de pescaria. Com uma burocracia impressionante: você entrava numa fila, pegava um papelzinho com a prima, daí ia pra outra, entregava o papelzinho pra mesma prima, e daí podia pescar; quando ganhava o prêmio, a mesma prima o entregava pra você.
As pessoas começaram a chegar. Lá pelas oito da noite os presentes rezaram o terço, colocaram as imagens novas dos santos no mastro e o som começou. Eu comecei a conversar com a Vanessa, uma prima minha, três anos mais nova do que eu, que está fazendo Jornalismo, mora em Uberlândia e só vem ver a família uma vez por ano, na festa junina. A gente conversou por um tempão. Quando eu fui dar atenção pro resto da família, percebi que não conhecia um décimo das pessoas que estavam na festa.
Fui pra churrasqueira, e encontrei meu primo Rodrigo trazendo uns baldes d’água. Tinham montado a churrasqueira (de ferro) em cima de cavaletes de madeira, e agora que ela estava acesa os cavaletes estavam começando a pegar fogo. O Rodrigo estava tentando evitar acidentes, jogando água nos cavaletes para que não fossem queimados.
Fui então falar com as tias organizadoras. O diálogo com todas foi mais ou menos assim:
"Tia, quanta gente tá aqui, hein?", dizia eu.
"Pois é, a festa tá cheia", dizia a tia.
"Pior que eu não conheço quase ninguém aqui!"
"Olha, sabe que nem eu? De onde será que veio tanta gente?"
E este ficou sendo o mistério. A festa estava lotada de gente que, quando trazia alguma coisa, trazia um prato de salgadinho, ficava bebendo as cervejas e ainda reclamava da carne. E nem pra aplaudir o meu pai tocando.
Chegamos à conclusão que os amigos deviam estar convidando os amigos que convidavam os amigos que traziam os amigos, as namoradas e a família da namorada.
Felizmente nenhuma desgraça aconteceu, os bêbados foram todos pacíficos, nenhuma criança perdeu dedos com as bombinhas (apesar de que algumas mereciam) nem caiu na fogueira. O Anselmo ganhou o prêmio Mr. Caipirinha que as primas menores instituíram, e eventualmente os cavaletes pegaram fogo e a churrasqueira caiu no chão.
Eu voltei pra casa da vó cedo, de carona. As tias ficaram até o último convidado (desconhecido, aliás) ir embora, saíram catando as latinhas do chão, daí foram pra casa, acordaram no dia seguinte cedo, voltaram para a chacrinha e limparam tudo. Já resolveram que ano que vem vão dar um jeito de ir menos gente, porque assim não dá. Eu duvido, porque a notícia da festa só tende a espalhar, mas, enfim. Eu só usufruo, não organizo.