Ontem eu fiz um esforço pra não fazer nada. Juro que fiz. Cheguei no apartamento e não movi um dedo para arrumar a bagunça acachapante do meu quarto. Não lavei um prato da pilha de louça. Ignorei tudo, liguei o computador e fui jogar Starcraft. Terminei uma missão que tinha deixado pela metade e comecei outra. Cumpri a missão, mas não gostei porque não tinha matado todos os inimigos, voltei, e uma hora depois estava sadicamente causando uma destruição desmedida quando The Powers That Be acharam que já estava bom, que eu tinha que parar com isso, e cortaram a energia do quarteirão.
Sim, eu penso que o mundo gira em torno de mim.
A primeira coisa que eu pensei foi "ué, o racionamento não começava só mês que vem?", para depois pensar que não devia ser nada tão drástico assim. E aparentemente não estava sozinho neste raciocínio, porque várias pessoas na rua e no prédio começaram a gritar "Apagão! Apagão!" quando a luz se foi.
E eu nem tinha salvado o jogo.
Mas enfim, nem escuro direito ficou, porque logo no quarteirão ao lado tudo continuava aceso, e só o luminoso da farmácia da esquina é capaz de iluminar o bairro inteiro. Ficou escuro só o suficiente pra não dar pra fazer nada.
É nessas horas que se pensa o que as pessoas faziam antes da eletricidade. O que resta para fazer? Não dá pra ver nada, ouvir nada, ler nada. Não dá nem pra sair do apartamento, porque o elevador não funciona.
Lá fui eu desenterrar as velas que estavam guardadas desde o ano passado. Depois de arrumar um canto confortável no meu desarrumado quarto, fiquei eu gastando a retina tentando ler à luz de velas – algo que aumentará para sempre minha admiração pelos monges copistas. Depois quando a luz voltou, ela parecia tão mais branquinha, tão mais clara…
Resolvi então usar meu tempo de forma útil, e fiquei escrevendo os textos pra Artigo Definido. Fiz um sobre palavras cruzadas e outro sobre a Trip. Fui terminar às três da manhã, com uma sensação de dever cumprido e a certeza de que não ia querer acordar cedo no dia seguinte.